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O que você precisa fazer após o diagnóstico: consulta médica e exames

Por Dr. Richard Portier

em 10 de abril de 2026.

O primeiro passo para a pessoa que vive com HIV/AIDS (PVHA), após o diagnóstico, é procurar assistência médica, realizar os exames de sangue e iniciar o tratamento o quanto antes. É fundamental encontrar um profissional em quem você possa confiar, com quem se sinta à vontade para conversar livremente e que responda às suas perguntas com respeito. É compreensível, no entanto, que nem sempre seja fácil ou que você não tenha muitas opções de escolha inicialmente.

Durante a consulta, lembre-se de que não há perguntas irrelevantes. Se o médico disser algo que você não entenda, não hesite em pedir que ele explique com mais clareza ou use uma linguagem mais simples. Se desejar, você também pode levar seu parceiro ou parceira, um amigo ou familiar para oferecer apoio e ajudar a lembrar de todos os detalhes. O importante é conversar abertamente sobre seus sintomas, exames e o tratamento futuro, buscando entender quais são os objetivos, os possíveis efeitos colaterais, como lidar com eles e se existem alternativas a serem consideradas.

Procure assistência médica

A busca por esse atendimento pode ocorrer tanto na rede pública quanto na particular. No SUS, o acompanhamento de pessoas com quadro clinicamente estável — ou seja, com níveis bons de imunidade e sem doenças oportunistas — geralmente é realizado pelo médico de família ou clínico geral. Para iniciar, basta procurar a Unidade Básica de Saúde da sua região. Por outro lado, caso você tenha plano de saúde ou prefira um atendimento particular, o ideal é agendar uma consulta diretamente com um médico infectologista, especialista na infecção pelo HIV.

O tratamento, chamado de terapia antirretroviral (TARV), é recomendado para todas as PVHA, independentemente do tempo de infecção ou de quão saudáveis estão no momento. A medicação interrompe a progressão da doença e protege o sistema imunológico. No Brasil, o tratamento é 100% gratuito e disponibilizado pelo SUS para todas as pessoas, sejam brasileiras ou imigrantes. É importante ressaltar que médicos de qualquer rede, pública ou privada, podem prescrever o tratamento para que você retire a medicação gratuitamente pelo sistema público.

Anamnese (entrevista médica)

Na consulta inicial, o médico deve coletar as seguintes informações:

  • Identificação: estado civil, profissão, escolaridade, cidade de origem e plano de saúde.
  • Histórico específico do HIV: data do diagnóstico, último teste de HIV negativo, contagem de linfócitos CD4 (valor mínimo e pré-tratamento), histórico detalhado da TARV, efeitos adversos aos medicamentos, teste de genotipagem (se realizado), resultados da última carga viral e CD4.
  • Histórico médico atual e pregresso: sintomas atuais, doenças crônicas em tratamento, terapias medicamentosas de longa duração prévias, histórico psiquiátrico, histórico de ISTs, internações hospitalares, histórico ginecológico/obstétrico, cirurgias anteriores e alergias a medicamentos.
  • Hábitos de saúde: histórico sexual, consumo de álcool e drogas, tabagismo, uso de hormônios anabolizantes, dieta, atividade física, padrão de sono e uso de suplementos.
  • Imunizações: histórico de vacinas administradas.
  • Histórico familiar: foco em parentes de primeiro grau.

Exame físico

O médico deve investigar ativamente sinais e sintomas específicos de cada sistema:

  • Constitucional: perda de peso (intencional ou não), febre, calafrios, suores noturnos, fadiga, mal-estar e distribuição de gordura corporal. Aferir pressão arterial, pulso, frequência respiratória, temperatura, peso e altura.
  • Cabeça, olhos, ouvidos, nariz e garganta: cefaleia, dor de ouvido ou facial, congestão sinusal, rouquidão, dor de garganta, rinorreia, disfagia, dor oral, linfadenopatia (inchaço de gânglios), coriza e alterações visuais (manchas ou visão turva).
  • Cardiovascular: dor torácica, dispneia, ortopneia, claudicação, edema, palpitações, bulhas cardíacas, sopros e ritmo de galope.
  • Respiratório: tosse, expectoração (escarro simples ou hemoptoico), sibilos, falta de ar e alterações à ausculta pulmonar.
  • Gastrointestinal: náusea, vômito, diarreia, constipação, dor abdominal, pirose (azia), disfagia, hematoquezia, melena, flatulência e icterícia. Realizar palpação abdominal.
  • Geniturinário: dismenorreia, sangramentos anormais, disúria, aumento da frequência urinária, hematúria, incontinência urinária ou fecal, urgência miccional, dor lombar, no flanco ou pélvica.
  • Musculoesquelético: artralgias, mialgias, rigidez, dor lombar ou cervical e lesões musculares.
  • Pele: erupções, prurido, alopecia, alterações de cor/textura, dermatite seborreica, foliculite, nevos melanocíticos (pintas), psoríase, líquen plano, lesões suspeitas de sarcoma de Kaposi, verrugas, lesões vasculares, dermatofitoses, molusco contagioso e marcas de agulha.
  • Neurológico: fraqueza, dormência, parestesias, perda de consciência, síncope, tontura, alterações de coordenação e histórico de quedas recentes.
  • Psiquiátrico: ansiedade/pânico, depressão, insônia, mudanças de personalidade, delírios, ruminação, ideação suicida ou homicida, alucinações, isolamento social, lapsos de memória, histórico de abuso/violência e distúrbios alimentares.
  • Hematológico e linfático: hematomas, sangramentos, histórico de transfusões, linfadenopatia (regional ou generalizada) e esplenomegalia.
  • Endócrino: poliúria, polidipsia e intolerância ao calor ou ao frio

Avaliação emocional e educacional

Um aspecto fundamental é investigar como o paciente está lidando emocionalmente com o diagnóstico, especialmente se for recente. É apropriado perguntar se a PVHA já compartilhou o diagnóstico com sua rede de apoio (amigos, parceiros ou familiares).

Além disso, deve-se avaliar o nível de letramento em saúde do paciente. Estudos demonstram que PVHA que compreendem melhor a infecção e a importância da TARV apresentam melhores desfechos a longo prazo, enquanto o conhecimento incompleto está diretamente ligado à baixa adesão. A equipe médica deve explicar, em linguagem acessível, o significado clínico do CD4, da carga viral e da adesão rigorosa ao tratamento.

Exames complementares e monitoramento

Abaixo estão os principais exames solicitados na avaliação inicial e no seguimento, de acordo com o livro Fundamentals of HIV Medicine, edição 2025. A periodicidade e a indicação variam conforme o contexto clínico:

Exames específicos do HIV

  • Contagem de linfócitos CD4: realizada no início e a cada 3 a 6 meses. Se a carga viral estiver indetectável e o CD4 entre 300 a 500 células/mm³ por 2 anos, pode ser anual. Se o CD4 ultrapassar 500 células/mm³, o monitoramento torna-se opcional. Estadiamento clínico, risco de doenças oportunistas e indicação de profilaxias. A porcentagem de CD4 também deve ser avaliada por ser mais estável que a contagem absoluta.
  • Carga viral do HIV: no início; repetida 2 a 8 semanas após iniciar a TARV, e depois a cada 4 a 8 semanas até se tornar indetectável (menor que 50 cópias/mL). Após isso, a cada 6 meses. Direciona a escolha da TARV (alguns esquemas falham se a carga inicial for maior que 100.000 cópias/mL) e monitora a eficácia do tratamento.
  • Teste de Genotipagem: indicado em casos de falha terapêutica ou situações especiais (ex: gestação). Avalia o perfil de resistência viral aos medicamentos.
  • Pesquisa do alelo HLA-B*5701: obrigatório antes de prescrever abacavir. Avalia o risco de hipersensibilidade grave (contraindicado se positivo).
  • Teste de tropismo CCR5: necessário antes de prescrever maraviroque. Verifica se o vírus utiliza o correceptor CCR5 para invadir a célula.

Exames gerais e metabólicos

  • Hemograma completo: no início e conforme necessidade clínica. Investigaa anemia, leucopenia, linfopenia e trombocitopenia. Alterações podem derivar do próprio HIV, infecções oportunistas, carências nutricionais ou toxicidade medicamentosa (ex: zidovudina).
  • Função renal (creatinina, ureia e urina tipo I): no início e a cada 6 meses. Rastreia nefropatia associada ao HIV ou toxicidade por Tenofovir disoproxila.
  • Função hepática (TGO e TGP): no início e a cada 6 meses. Rastreia hepatites virais, esteatose ou lesão hepática induzida por drogas (DILI).
  • Perfil Glicêmico e lipídico: glicemia em jejum e lipidograma no início e a cada 6 meses. Rastreio de resistência à insulina, diabetes tipo 2 e cálculo de risco cardiovascular.
  • Vitamina D: no início e conforme apropriado para diagnóstico de insuficiência/deficiência.
  • Triagem para G6PD: avalia deficiência enzimática que aumenta o risco de anemia hemolítica, especialmente no uso de dapsona ou primaquina.

Rastreamento de outras condições

  • Sorologias (hepatites A, B e C e VDRL): hepatites e sífilis (VDRL) no início e a cada 6 meses. Orientam o tratamento, a escolha da TARV e a indicação de vacinas.
  • Teste para tuberculose (PPD ou IGRA): no início e anualmente. Diagnostica infecção latente por tuberculose (ILTB).
  • Teste de gravidez: essencial em pessoas com potencial reprodutivo antes de iniciar a TARV.
  • Rastreio oncológico (papanicolau, HPV e citologia anal): Papanicolau/HPV no início e a cada 6 a 12 meses para rastreio de câncer de colo de útero. A citologia anal avalia lesões em pessoas que praticam sexo anal receptivo.
  • Mamografia e colonoscopia: rastreamento de câncer de mama e cólon seguindo as diretrizes gerais de faixa etária da população.
  • Densitometria óssea: rastreio de osteoporose em mulheres pós-menopausa, homens com mais de 50 anos ou PVHA com risco aumentado (ex: uso crônico de tenofovir disoproxila).
  • Saúde mental (Testes PHQ-9 e GAD-7): ferramentas padronizadas para rastreamento de depressão e ansiedade.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.

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