ARTIGO

O que é o HIV, a AIDS e o tratamento?​

Por Dr. Richard Portier
em 09 de abril de 2026.

Durante a minha residência médica em infectologia no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, eu estava no ambulatório quando meu chefe me parou e perguntou a uma paciente:

— A senhora conhece este médico?

E ela respondeu:

— Sim, ele me contou a historinha do carneiro.

Eu havia contado essa história para ela dois anos antes daquele dia. Era uma paciente que não aderia aos medicamentos pois não entendia a sua doença. Por meio dessa história, expliquei o que são o HIV e a AIDS e, principalmente, como funciona o tratamento. A partir daquele momento, ela passou a ter uma ótima adesão.

Entender o que é o HIV e a AIDS é o primeiro passo e o mais fundamental. Como resultado, o paciente tem uma adesão muito maior ao tratamento. Neste artigo, vou ensinar três conceitos fundamentais sobre a infecção causada pelo HIV: o linfócito CD4, o HIV e a AIDS.

O que é CD4?

O CD4 é um linfócito, uma célula do sistema imunológico responsável por combater infecções. Você sabe por que não ficamos doentes a todo momento? Quando entramos em contato com qualquer microrganismo, o sistema imunológico nos protege. Nesse sistema, existem várias células protetoras, sendo uma delas o linfócito CD4.

Por exemplo: ao entrar em contato com a bactéria da tuberculose, uma pessoa fica doente? Provavelmente não, pois o sistema imunológico a protege, combatendo a bactéria, destruindo-a ou inativando-a. O linfócito CD4 age como um soldado que nos protege quando necessário. Em apenas 1 mm³ (milímetro cúbico) de sangue, temos de 500 a 1.500 dessas células, ou seja, milhares de soldados prontos para nos defender.

O que é HIV?​

O HIV é o vírus da imunodeficiência humana, que, se não tratado, pode levar à síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA, ou AIDS, em inglês).

Assim como qualquer outro vírus, o HIV precisa de uma célula específica para se multiplicar e sobreviver. Essa célula é justamente o linfócito CD4. Porém, ao se multiplicar, o vírus destrói o CD4. Por isso, com o tempo, a quantidade dessas células se reduz progressivamente. Sem esses linfócitos, o sistema imunológico não consegue nos proteger e, portanto, a pessoa adoece. Chamamos essas infecções ou cânceres de doenças oportunistas, pois elas se aproveitam de um sistema imunológico enfraquecido, com poucos linfócitos CD4. Esse estágio é chamado de AIDS.

O que é AIDS?​

A AIDS é a fase mais grave da infecção pelo HIV. A pessoa com AIDS está com o sistema imunológico gravemente danificado, com poucos linfócitos CD4 para protegê-la. Como resultado, fica exposta às doenças oportunistas e a complicações que o próprio HIV pode causar.

Quais são os estágios da infecção pelo HIV?​

Sem tratamento, o HIV destrói os linfócitos CD4 ao longo de anos e, consequentemente, o sistema imunológico. Os três estágios da infecção pelo HIV são:

  1. Infecção aguda pelo HIV.
  2. Latência clínica.
  3. AIDS. 

Imagem retirada do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. 2018.

Infecção aguda

A infecção aguda é a primeira fase e ocorre entre 2 e 4 semanas após a pessoa contrair o vírus. Muitos, mas não todos, desenvolvem sintomas gripais, como febre, ínguas, dor de garganta, lesões de pele, dores musculares, dores articulares e dor de cabeça. Isso é chamado de “síndrome retroviral aguda” ou “infecção primária pelo HIV”.

Durante esse período inicial, o vírus se multiplica muito e, como resultado, destrói diversos linfócitos CD4. Porém, o sistema imunológico consegue diminuir o ritmo dessa multiplicação, deixando o nível de vírus estável e recuperando parcialmente a contagem de células protetoras.

Latência Clínica​

Após a infecção aguda, a doença passa para o estágio chamado de “latência clínica”. Nesse período, o vírus continua sua multiplicação, destruindo os linfócitos CD4, porém sem causar sintomas. É nessa fase que a maioria das pessoas faz o diagnóstico da infecção pelo HIV. Portanto, ao iniciar o tratamento imediatamente, a infecção não evolui para a fase de AIDS.

AIDS​

Caso a pessoa não trate a infecção, ela chegará à fase de doença, a AIDS, em um período de 2 a 18 anos (em média, 10 anos). Nesse estágio da infecção, a contagem de linfócitos CD4 é muito baixa e o sistema imunológico está gravemente danificado. Consequentemente, ele não desempenha a sua função de proteção.

A condição é definida como AIDS quando a contagem de linfócitos CD4 cai para menos de 200 células por mm³ ou quando a pessoa desenvolve uma doença oportunista, independentemente da sua contagem de células. Ou seja, a pessoa só tem 200 soldados por mm³ para proteção, enquanto um indivíduo saudável apresenta entre 500 e 1.500.

Sem tratamento na fase de AIDS, o prognóstico é de aproximadamente 3 anos. Se houver o desenvolvimento de uma doença oportunista grave, a expectativa de vida sem tratamento cai para 1 ano. No entanto, se o tratamento for iniciado, existe a chance de controle da doença, mas a recuperação do sistema imunológico pode não ser tão ampla quanto a de uma pessoa que iniciou a medicação antes de chegar a essa fase.

HIV e o tratamento

A terapia antirretroviral (TARV) é o uso de medicamentos contra o HIV para o tratamento da infecção. A TARV é recomendada para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente do tempo de infecção.

Os medicamentos contra o vírus, chamados de antirretrovirais, impedem sua multiplicação. Como resultado, a quantidade de vírus no corpo se reduz até ficar indetectável no sangue. Não ter o vírus detectável no sangue faz com que os linfócitos CD4 não sejam destruídos e, consequentemente, mantém a proteção do sistema imunológico. Com um bom número de soldados e sem que eles sejam atacados, a pessoa está protegida.

Embora ainda haja HIV escondido no corpo em lugares onde os antirretrovirais não chegam, chamados de células reservatório, o sistema imunológico fica forte o suficiente para combater as doenças oportunistas.

Porém, ao parar o tratamento, o HIV volta a se multiplicar, destruindo os linfócitos CD4 e o sistema imunológico. Por isso, é importantíssimo tomar os antirretrovirais todos os dias. A TARV não cura o HIV, mas faz com que as pessoas vivendo com o vírus vivam suas vidas de forma totalmente saudável.

A história

Para você entender melhor, vou fazer uma analogia. Eu acredito que, se a pessoa entende a infecção, ela tem uma adesão melhor ao tratamento. Essa história foi contada para mim por alguém por quem tenho um carinho especial: o também médico infectologista Dr. José Luiz de Andrade Neto. Ele viveu a época em que não existia tratamento e, por isso, perdeu muitos pacientes. Mas também ajudou vários, os sobreviventes das décadas de 80 e 90. Essa é minha homenagem por tudo o que ele fez para essas pessoas.

A terra, o pasto, o carneiro e a cerca

Em primeiro lugar, eu quero que você imagine a terra, o pasto, um carneiro e uma ovelha. Para sobreviverem, o carneiro e a ovelha precisam se reproduzir, ou seja, multiplicar a sua espécie. Portanto, alimentam-se do pasto. Quanto mais carneiros, mais pastos são destruídos e mais exposta fica a terra.

A terra exposta fica vulnerável a infecções, como fungos e bactérias, até o momento em que nada mais cresce, ou seja, ela morre. O que aconteceria se você construísse uma cerca e prendesse todos os carneiros em um canto? O pasto cresceria novamente, protegendo a terra. Porém, ao quebrar a cerca, todos os carneiros voltariam a comer o pasto, expondo a terra novamente.

O CD4, o HIV e o tratamento

Agora vamos trocar os personagens: a terra é a pessoa que vive com HIV; o pasto, seus linfócitos CD4; o carneiro é o HIV; e a cerca é o tratamento.

O HIV precisa se multiplicar e precisa “comer” o CD4. Consequentemente, quanto mais HIV, mais células CD4 são destruídas e mais exposta a pessoa fica. Em conclusão: a pessoa exposta ficará vulnerável a infecções, como fungos e bactérias, até o momento em que o corpo não responde mais, ou seja, morre.

Ao iniciar o tratamento, a pessoa constrói a cerca. E só ela pode fazer isso, ninguém mais. Deixando o vírus preso, os linfócitos CD4 voltam a crescer o suficiente para proteger. Porém, se a pessoa para o tratamento, ela destrói essa cerca. Então, o vírus volta a se multiplicar e a destruir os linfócitos CD4, e ela fica exposta novamente.

Não existe cura para a infecção causada pelo HIV. O tratamento não é uma arma que irá acabar com todos os vírus, mas pode controlá-los.

Tomar os antirretrovirais todos os dias, conforme orientado pelo médico, é o melhor negócio para a vida da pessoa que vive com HIV. O tratamento sempre será a parte mais importante da saúde. Tratar o vírus é igual a viver, ter amores, ter futuro.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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