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Quais suplementos melhoram a performance esportiva na pessoa que vive com HIV?

Por Dr. Richard Portier

em 25 de março de 2026.

Neste artigo veremos quais suplementos possuem evidências científicas para a performance no exercício físico em pessoas que vivem com HIV/AIDS (PVHA). Para isso, utilizei como referência o livro Suplementos, Exercícios e Esportes: Uma Visão Endocrinológica (2.ª edição).

Segundo o Australian Institute of Sport (AIS), os suplementos alimentares para atletas podem ser divididos em quatro categorias (A, B, C e D). Essa classificação visa determinar se o suplemento é eficaz, legal e seguro, de acordo com as evidências científicas mais atuais e as determinações da Agência Mundial Antidopagem (WADA – World Anti-Doping Agency).

Os suplementos do grupo A são considerados eficazes, além de seguros do ponto de vista médico e legais com relação às normas da WADA. Os suplementos dos grupos B e C são considerados legais e seguros, porém menos efetivos para o ganho de desempenho esportivo. Já os do grupo D, além de não serem seguros, são considerados ilegais pela WADA. Os suplementos do grupo A podem ser divididos em três categorias:

  • Alimentos esportivos: são produtos utilizados para fornecer macronutrientes e micronutrientes quando é impraticável consumir alimentos em uma determinada ocasião. São ricos em carboidratos, proteínas e eletrólitos. Exemplos incluem: bebidas esportivas, suplementos em gel (como o gel de carboidrato), gomas esportivas, barras proteicas/energéticas, repositores de eletrólitos, suplementos proteicos isolados (como o whey protein) e suplementos de macronutrientes mistos.
  • Suplementos médicos: são usados para prevenir ou tratar condições clínicas, inclusive deficiências diagnosticadas de vitaminas e minerais. Exemplos incluem: suplementos de ferro, cálcio, multivitamínicos, vitamina D e probióticos.
  • Suplementos de performance: melhoram o desempenho esportivo ao fornecer mais energia ou ajudar na recuperação muscular. Exemplos incluem: creatina, cafeína, beta-alanina e pó de beterraba/nitrato.

Creatina

A suplementação de creatina tem como objetivo melhorar o desempenho em exercícios de alta intensidade, auxiliando no aumento da massa e da força muscular, o que proporciona um maior volume e intensidade aos treinamentos. Encontramos benefícios principalmente em exercícios de alta intensidade e curta duração (de até 150 segundos), com um efeito mais pronunciado em atividades de até 30 segundos.

A creatina, ou ácido metilguanidino-acético, é um composto derivado de aminoácidos sintetizado pelo próprio organismo nos rins, no fígado e no pâncreas a partir da arginina, glicina e metionina. Ela também é obtida pela ingestão de carnes e peixes. Cerca de 95% da reserva de creatina está armazenada no músculo esquelético, e os 5% restantes encontram-se no cérebro, fígado, testículos e rins. Porém, existe uma capacidade máxima para a síntese de creatina endógena, não sendo possível o aumento expressivo dos seus níveis musculares apenas com a dieta, o que torna a suplementação necessária para maximizar esses estoques. A suplementação resulta em um aumento de 10 a 30% da creatina total em curto prazo, refletindo um aumento de 10 a 40% no armazenamento de fosfocreatina.

A dose inicial de saturação (ou carga) recomendada é de 20 a 25 g por dia, dividida em 4 tomadas ao longo do dia, durante 5 a 7 dias, mas essa etapa é opcional. A dose de manutenção mais frequente é de 3 a 5 gramas por dia, de uso contínuo.

Em revisões sobre os efeitos colaterais do suplemento, estudos que examinaram os níveis séricos de creatinina não evidenciaram lesão renal em indivíduos jovens e saudáveis. A International Society of Sports Nutrition (ISSN), no artigo “International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine“, emitiu um parecer atestando a segurança do suplemento.

No estudo “Creatine fails to augment the benefits from resistance training in patients with HIV infection: a randomized, double-blind, placebo-controlled study“, realizado com PVHA que suplementaram creatina, também não houve indício de lesão renal. Uma importante consideração de segurança envolve a interpretação laboratorial: o relato de caso “Elevated serum creatinine in the context of HIV – who is the culprit? Over-the-counter supplements vs. antiretrovirals” descreve uma PVHA de 53 anos com carga viral indetectável, cuja creatinina sérica aumentou após o início do uso de creatina, levando a uma troca desnecessária de medicamentos antirretrovirais. Contudo, o teste de TFG (Taxa de Filtração Glomerular) marcado com cromo revelou que sua função renal estava, na verdade, estável.

Tudo isso é particularmente relevante no tratamento do HIV, pois interpretações laboratoriais equivocadas podem levar a mudanças medicamentosas desnecessárias ou à proibição indevida de um suplemento seguro como a creatina.

Cafeína

A cafeína é um antagonista do receptor de adenosina. Quando estamos acordados e descansados, a adenosina é encontrada em níveis baixos no organismo. Com o passar do dia, os níveis de adenosina se elevam, aumentando a ligação aos seus receptores e ocasionando sonolência e redução do estado de alerta. A cafeína age justamente competindo com a adenosina por esses receptores. Essa competição modifica a quantidade e a ação de neurotransmissores no sistema nervoso central. O efeito gerado é o aumento do estado de alerta e a redução da sensação de cansaço e de dor.

A suplementação com cafeína, em uma dose entre 3 e 6 mg/kg, pode melhorar a performance esportiva, tanto na resistência, quanto na velocidade de movimento e na força muscular. Porém, os exercícios aeróbicos tendem a apresentar resultados mais expressivos. O momento mais indicado para o seu uso é uma hora antes do exercício físico, mas, a depender da fonte de cafeína, esse tempo pode ser bem menor (como no caso de gomas de cafeína, que possuem absorção sublingual). Em atividades físicas de longa duração (mais de uma hora), a ingestão de cafeína ao longo da prática esportiva demonstrou melhora na percepção de fadiga e no desempenho geral.

No entanto, em doses elevadas (geralmente acima de 9 mg/kg), a substância pode ocasionar efeitos adversos. Os mais comuns são taquicardia, palpitações, dores de cabeça e ansiedade. Além disso, se ingerida no final da tarde ou à noite, pode alterar o sono.

A cafeína não interage com os antirretrovirais e é um suplemento seguro para as PVHA.

Beta-alanina

A beta-alanina é um aminoácido não essencial produzido pelo fígado, intestino e rins, também obtido pela dieta por meio da ingestão de carnes e aves. Quando combinada com a L-histidina, sob a ação da enzima sintetase, forma um dipeptídeo chamado carnosina (beta-alanil-L-histidina), que é encontrado em grandes quantidades no tecido muscular, no coração e em algumas regiões do cérebro.

A carnosina atua como um tampão intracelular durante exercícios de alta intensidade. Por isso, ela traz benefícios significativos em treinos intensos — principalmente os dependentes do metabolismo anaeróbico e praticados até a exaustão —, em especial naqueles limitados pela percepção de fadiga.

A suplementação de beta-alanina pode resultar em um aumento de até 80% na quantidade de carnosina intramuscular, o que corresponde a um incremento de 3% a 5% na capacidade de tamponamento celular. O seu uso é recomendado, sobretudo, para atividades físicas que durem de 60 a 240 segundos. Ganhos de até 14% na performance já foram demonstrados, por exemplo, em testes de ciclismo com potência máxima dentro dessa faixa de tempo.

A dosagem recomendada é de 4 a 6 g por dia, por via oral, na forma de cápsulas ou pó. Os níveis intracelulares de carnosina começam a se elevar de forma efetiva a partir de, pelo menos, duas semanas de uso contínuo (um aumento de 20% a 30%). Concentrações maiores são alcançadas com o uso prolongado, podendo chegar a um aumento de 80% após 10 semanas.

O único efeito adverso relatado é o formigamento (parestesia), localizado principalmente na face, no pescoço e no dorso das mãos. Ele pode ocorrer cerca de 10 a 20 minutos após a ingestão e durar até uma hora. Esse efeito é dose-dependente e não acomete todas as pessoas, variando de acordo com a sensibilidade individual.

A beta-alanina não interage com os antirretrovirais e é um suplemento seguro para as PVHA.

Pó de beterraba

O nitrato é um composto essencial para a performance esportiva, sendo o pó de beterraba a sua principal forma de suplementação. Diferentemente da via convencional de produção de óxido nítrico — que depende da enzima óxido nítrico sintase e de precursores como a citrulina e a arginina —, a via do nitrato atua de forma independente desse processo enzimático. Ao ser ingerido, o nitrato é convertido e promove uma liberação direta de óxido nítrico na circulação, resultando em uma potente vasodilatação.

Essa resposta fisiológica garante uma maior perfusão tecidual, o que significa que mais oxigênio chega aos músculos. Simultaneamente, facilita a remoção de subprodutos do metabolismo celular, como as espécies reativas de oxigênio, otimizando o ambiente intramuscular para o exercício.

O pó de beterraba é benéfico para corredores de rua (de 5 km a maratonas), ciclistas, nadadores e praticantes de spinning. Além de aumentar a capacidade cardiorrespiratória, confere vantagens competitivas em situações de apneia e em competições realizadas em grandes altitudes.

Para o consumo, existem formulações em géis, barras e shots que fornecem de 400 a 800 miligramas de nitrato. No entanto, pode-se utilizar o suco de beterraba natural, preparado com aproximadamente 100 a 200 gramas do vegetal batidos com água.

O pó de beterraba não interage com os antirretrovirais e é um suplemento seguro para as PVHA.

Suplementos das categorias B e C

Os suplementos das categorias B e C são permitidos pela WADA e seguros do ponto de vista médico. No entanto, possuem pouca ou nenhuma evidência científica para o ganho de desempenho esportivo — motivo pelo qual não recomendo aos meus pacientes. Eles podem ser divididos em três subgrupos principais:

  • Antioxidantes e polifenóis: compostos com propriedades anti-inflamatórias. Exemplos incluem suco de cereja, frutas vermelhas (berries), quercetina, EGCG (epigalocatequina-galato), epicatequinas, vitamina C, vitamina E e N-acetilcisteína (NAC).
  • Apoiadores do metabolismo e funções corporais: suplementos que podem beneficiar processos específicos do organismo. Exemplos incluem colágeno, carnitina, HMB, suplementos de cetona, ômega-3, fosfato, curcumina e zinco.
  • Aminoácidos: utilizados como complemento proteico. Exemplos incluem BCAA (leucina) e tirosina.

Todos os suplementos citados são seguros em PVHA, porém, aqueles que contêm vitaminas e minerais podem interagir com a terapia antirretroviral. Por isso, precisam ser tomados com, no mínimo, seis horas de diferença. 

Suplementos da categoria D

Os itens da categoria D são considerados ilegais pela WADA no esporte e não são seguros do ponto de vista médico. A lista completa e atualizada pode ser encontrada em www.wada-ama.org. Esta categoria inclui:

  • Estimulantes: efedrina, estricnina, sibutramina, metil-hexanamina, 1,3-dimetilbutilamina e outros estimulantes herbais.
  • Hormônios e pró-hormônios: deidroepiandrosterona (DHEA), androstenediona, 19-norandrostenediona/diol, oximetolona, oxandrolona, nandrolona, dianabol, boldenona, trembolona, masteron, primobolan, proviron e estanozolol. Extratos como Tribulus terrestris e Maca Peruana também são desencorajados pelo alto risco de contaminação cruzada com esteroides.
  • Testosterona e seus ésteres: fármacos utilizados legitimamente para o tratamento da deficiência de testosterona, mas frequentemente usados de forma abusiva. Exemplos incluem cipionato, propionato, fenilpropionato, isocaproato, decanoato e undecanoato de testosterona, além de testosterona em gel.
  • Liberadores de GH e peptídeos.
  • Agonistas beta-2: como a higenamina.
  • Moduladores seletivos de receptores androgênicos (SARMs): como andarina, ostarina e ligandrol.
  • Moduladores metabólicos: como o GW1516 (cardarina).

Todos os suplementos citados são contraindicados para os atletas vivendo com HIV por possíveis interações medicamentosas com os antirretrovirais, doping, falta de evidências científicas ou prejuízos à saúde.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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