ARTIGOS

Sono e HIV: diagnóstico e tratamento dos transtornos do sono

Por Dr. Richard Portier

em 10 de abril de 2026.

A revisão sistemática e meta-análise “The prevalence and moderating factors of sleep disturbances in people living with HIV: a systematic review and meta-analysis”, publicado na Scientific Reports em junho de 2024, teve como objetivo investigar a prevalência de transtornos do sono autorrelatados em pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA), considerando os efeitos da idade, depressão, ansiedade, contagem de células CD4, tempo desde o diagnóstico de HIV, região do estudo e os instrumentos utilizados para medir os distúrbios do sono. Os autores utilizaram o PubMed, PsycINFO e EMBASE como fontes de busca para incluir artigos elegíveis.

Nesta meta-análise de 43 estudos, a prevalência agrupada de transtornos do sono autorrelatados foi de 52,29% (intervalo de confiança de 95%: 47,69–56,87). Nas análises de metarregressão, maiores proporções de participantes com depressão ou ansiedade e maior tempo desde o diagnóstico de HIV foram significativamente associados a uma maior prevalência de transtornos do sono autorrelatados após o ajuste para a idade média.

Outro estudo, “Prevalence and Risk Factors of Sleep Disturbance in a Large HIV-Infected Adult Population”, publicado na AIDS and Behavior em agosto de 2015, também encontrou resultados semelhantes.

Este foi um estudo transversal na região de Pays de la Loire, noroeste da França, onde a população de pessoas vivendo com HIV é de 3.736. Entre novembro de 2012 e maio de 2013, todas as PVHA com mais de 18 anos de idade que se apresentaram para atendimento de rotina nas clínicas de Nantes, Angers, La Roche-sur-Yon, Saint-Nazaire, Le Mans e Laval foram convidadas a participar do estudo.

Cada participante respondeu a um questionário sobre distúrbios do sono, o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI). O PSQI é um questionário de 19 itens sobre o sono do último mês e avalia os componentes do sono, incluindo qualidade do sono, latência do sono, duração do sono, eficiência habitual do sono, distúrbios do sono, uso de hipnóticos e disfunção diurna (sono diurno). Os distúrbios do sono foram definidos como um escore global maior que 5.

No período estipulado, 1.354 PVHA foram incluídas no estudo. Os participantes eram principalmente homens nascidos na França, com idade no final da casa dos 40 anos. A maioria dos participantes estava em terapia antirretroviral por uma mediana de quase 10 anos, com carga viral indetectável e CD4 maior que 500 células/mm³.

O tempo médio de sono foi de 7 horas. Observaram-se distúrbios do sono em 47% dos participantes e sintomas depressivos moderados a graves em 19,7%. Fatores significativamente associados foram depressão, sexo masculino, emprego ativo, viver sozinho, tabagismo, duração da infecção pelo HIV maior que 10 anos e uso de efavirenz na terapia antirretroviral.

Uma das causas de transtornos no sono nas PVHA é a apneia obstrutiva do sono (AOS). O artigo “Sleep disturbances in HIV-infected patients associated with depression and high risk of obstructive sleep apnea”, publicado na SAGE Open Medicine em abril de 2019, nos demonstra os principais fatores de risco para a doença.

Este foi um estudo transversal com PVHA de um ambulatório na Temple University, na Filadélfia. Os pacientes que se apresentaram para o acompanhamento de rotina entre 2014 e 2015 foram convidados a participar do estudo.

Para o diagnóstico de AOS, aplicou-se um questionário chamado “STOP-BANG”. Cada letra representa uma pergunta ou característica demográfica que pode ser respondida como “sim” ou “não”: ronco; cansaço; apneia observada; pressão alta; IMC maior que 35 kg/m²; idade maior que 50 anos; circunferência do pescoço maior que 41 cm em mulheres e maior que 43 cm em homens; e sexo masculino. As pontuações de 0 a 2, 3 a 4 e 5 a 8 indicam baixo, médio ou alto risco de AOS, respectivamente.

Foram incluídos no estudo 176 participantes. No questionário “STOP-BANG”, 36 (20%), 67 (38%) e 73 (41%) tinham risco de AOS alto, médio ou baixo, respectivamente. O aumento do risco de AOS foi associado a idade mediana mais avançada (54 vs. 51 vs. 45), sexo masculino (56% vs. 49% vs. 34%), ter IMC maior que 30 kg/m² (75% vs. 43% vs. 22%), circunferência de pescoço elevada (36% vs. 24% vs. 14%) e comorbidades metabólicas, incluindo diabetes (36% vs. 24% vs. 7%), hipertensão (83% vs. 64% vs. 25%) e dislipidemia (44% vs. 40% vs. 26%), além de diagnóstico preexistente de apneia do sono (25% vs. 9%) e problemas de sono autorreferidos (78% vs. 70% vs. 58%).

Diagnóstico dos transtornos de sono

De acordo com o guideline da European AIDS Clinical Society 13.ª edição, todas as PVHA devem ser rastreadas, a cada 2 anos, ou se relatarem sintomas, ou após a modificação da terapia antirretroviral, para transtornos do sono.

O método de rastreamento é a pergunta “Como está o seu sono?”. Se a PVHA relatar sintomas anormais de sono, deve-se seguir a investigação com questionários específicos para cada transtorno. 

Para insônia, deve-ser perguntar sobre: sintomas e a duração dos sintomas; frequência; impacto na qualidade de vida; horários e ambiente de sono; possíveis gatilhos; e aplicar o questionário Índice de Gravidade da Insônia (Insomnia severity index (ISI) questionnaire). Se o resultado for 0 a 7, não há insônia clinicamente significativa; 8 a 14, insônia subclínica (leve); 15 a 21, insônia clínica (gravidade moderada); e 22 a 28, insônia clínica (grave).

Para sonolência diurna excessiva deve-ser perguntar sobre: cochilos regulares durante o dia; episódios de adormecer durante o dia; sonolência afetando a vida do paciente; e aplicar o questionário Escala de Sonolência de Epworth (Epworth Sleepiness Scale (ESS) questionnaire). Se o resultado for 0 a 10, está normal; 10 a 12, limítrofe; e 12 a 24, anormal.

Para a AOS, pergunta-se sobre sintomas como sonolência, dificuldade de concentração e dores de cabeça, além de estar associada à respiração irregular durante a noite. Para o diagnóstico podemos aplicar o questionário STOP-Bang. Se o resultado for 0 a 2, há baixo risco para AOS; 3 a 4, risco moderado; 5 a 8, alto risco para AOS.

Tratamento não farmacológicos dos transtornos de sono

De acordo com as diretrizes da European AIDS Clinical Society (EACS), 13ª edição, caso a PVHA utilize efavirenz em sua terapia antirretroviral (TARV), recomenda-se a substituição deste medicamento. Se o esquema incluir o dolutegravir no período noturno, a orientação é transferir o seu uso para o período da manhã.

Também é necessário avaliar o uso de medicamentos concomitantes que possam causar sonolência — como anti-histamínicos, benzodiazepínicos, antidepressivos, analgésicos opioides, relaxantes musculares e alguns anti-hipertensivos —, além de fornecer aconselhamento sobre dieta e prática regular de exercícios físicos.

Um passo fundamental é promover hábitos de sono saudáveis, um conjunto de práticas conhecido como higiene do sono:

  • Estabelecer horários regulares: ir para a cama e acordar no mesmo horário todos os dias, inclusive nos finais de semana, para ajudar a regular o relógio biológico.
  • Criar um ambiente propício: manter o quarto escuro e silencioso, com uma cama confortável, é essencial.
  • Jantar cedo e leve: evitar refeições pesadas ou volumosas perto da hora de deitar.
  • Limitar cafeína e estimulantes:evitar o consumo dessas substâncias, especialmente à noite, pois elas interferem no sono.
  • Atividade física moderada: praticar exercícios regularmente pode melhorar a qualidade do sono, mas deve-se evitar atividades extenuantes perto da hora de dormir.
  • Gerenciamento do estresse: praticar técnicas de relaxamento, como respiração profunda, meditação ou yoga, ajuda a reduzir a ansiedade e a promover o sono.
  • Limitar o tempo de tela: evitar a luz azul de dispositivos eletrônicos antes de dormir, pois ela afeta a produção de melatonina, o hormônio que regula o sono.
  • Evitar cochilos longos: se for cochilar durante o dia, mantenha os cochilos curtos e distantes do horário de dormir noturno.
  • Não forçar o sono: caso não consiga dormir, o ideal é levantar-se, fazer uma atividade relaxante e voltar para a cama apenas quando sentir sono.

O American College of Physicians recomenda a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) como o tratamento de primeira linha para o transtorno de insônia crônica, com base em evidências de eficácia e segurança. A TCC-I é uma intervenção multimodal que inclui terapia cognitiva, estratégias comportamentais (como restrição de sono e controle de estímulos) e componentes educacionais (como a higiene do sono). Ela pode ser aplicada em vários formatos, incluindo presencialmente, on-line ou em módulos de autoajuda. A justificativa para essa recomendação é que a TCC-I apresenta benefícios duradouros, efeitos adversos mínimos e aborda diretamente os fatores comportamentais e cognitivos subjacentes que contribuem para a insônia.

Já em relação à AOS, a American Heart Association e a United States Preventive Services Task Force recomendam como tratamento de primeira linha a Terapia de Pressão Positiva nas Vias Aéreas (PAP) para pessoas sintomáticas (incluindo aquelas com sonolência diurna excessiva ou prejuízo na qualidade de vida relacionada ao sono) e para pessoas com hipertensão, independentemente da gravidade da apneia.

A PAP pode ser administrada como pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), PAP autoajustável (APAP) ou PAP em dois níveis (Bilevel/BIPAP). O CPAP e o APAP são igualmente eficazes e apresentam o melhor custo-benefício para a maioria dos pacientes. A adesão à terapia é fundamental para o benefício clínico, exigindo um acompanhamento rigoroso para monitorar o uso e a resolução dos sintomas.

Para casos de AOS leve ou para pacientes intolerantes à PAP, os aparelhos intraorais (dispositivos de avanço mandibular) são uma alternativa, sendo particularmente eficazes na AOS leve a moderada. Esses dispositivos aumentam o volume das vias aéreas superiores e reduzem o seu colapso, apresentando maior adesão por parte de alguns pacientes.

A perda de peso e a prática de exercícios físicos são recomendadas para todos os pacientes com AOS que apresentam sobrepeso ou obesidade, uma vez que uma redução de 10% no peso pode diminuir significativamente a gravidade da apneia. Por fim, a terapia fonoaudiológica pode ser considerada para pacientes com AOS posicional (na qual a apneia piora em determinadas posições de sono devido à queda da base da língua).

Tratamento farmacológicos dos transtornos de sono

De acordo com o livro Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (1.ª edição), os fármacos utilizados no tratamento da insônia pertencem, basicamente, a duas categorias. A primeira é constituída por medicamentos que reduzem a ativação do cérebro ao aumentar o impulso de sono, atuando por meio da ativação do GABA no centro hipotalâmico do sono. A segunda categoria atua reduzindo o impulso de ativação excessiva. Esses fármacos agem por meio do bloqueio das orexinas, da histamina, da serotonina ou da noradrenalina. Independentemente da estratégia adotada, o objetivo principal é mudar o estado anormal e indesejado de ativação ao deitar, passando de hiperativo para adormecido.

  • Moduladores alostéricos positivos do GABA: enquanto a preparação sublingual de zolpidem é voltada para o início da noite, a preparação convencional persiste até a metade, e a de liberação prolongada busca cobrir o período até o final do sono. A zopiclona também possui uma duração de ação levemente maior.
  • Bloqueio das orexinas: o suvorexanto e o lemborexanto são opções interessantes para a insônia presente na metade e no final da noite (insônia de manutenção), pois são capazes de promover tanto o sono NREM quanto o sono REM.
  • Antagonistas do receptor histaminérgico H1: o tratamento mais seletivo sobre esse receptor é aquele realizado com baixas doses de doxepina, cujo efeito persiste na segunda metade da noite. Doses pequenas de amitriptilina são usadas há décadas para a insônia e possivelmente atuam de modo semelhante, antagonizando os receptores H1.
  • Bloqueio da serotonina (antagonistas 5HT₂A): o principal exemplo é a trazodona, muitas vezes associada a ISRSs e IRSNs com o objetivo de contrapor os frequentes efeitos negativos que esses antidepressivos exercem sobre o sono.

Os fármacos utilizados para a sonolência excessiva diurna na narcolepsia incluem metilfenidato, anfetamina, modafinila, atomoxetina e oxibato de sódio. O efeito anticataplexia é obtido com os antidepressivos imipramina, clomipramina, fluoxetina, citalopram, venlafaxina e duloxetina.

Por fim, no que diz respeito à AOS, ensaios clínicos randomizados recentes estabeleceram que a tirzepatida (Mounjaro®) reduz significativamente a gravidade do quadro em adultos com obesidade, conforme medido pelo índice de apneia-hipopneia (IAH), independentemente de os pacientes estarem utilizando a terapia de pressão positiva nas vias aéreas (PAP).

Nos ensaios de fase 3 SURMOUNT-OSA, a tirzepatida resultou em reduções clinicamente significativas no IAH — uma diminuição de até 29,3 eventos por hora — em comparação ao placebo, com uma proporção substancial de pacientes atingindo limiares de IAH nos quais a terapia com PAP pode não ser mais indicada. Essas melhorias foram acompanhadas por reduções na carga hipóxica, na pressão arterial sistólica e na proteína C-reativa de alta sensibilidade, bem como por uma melhora nos desfechos relacionados ao sono relatados pelos pacientes.

A Obesity Society, em sua diretriz mais recente, reconhece a tirzepatida como uma opção terapêutica para AOS em pacientes com obesidade, citando os ensaios SURMOUNT-OSA como evidência de sua eficácia tanto em populações virgens de tratamento com PAP quanto naquelas já tratadas com PAP.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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