Por Dr. Richard Portier
em 10 de abril de 2026.
De acordo com o artigo “The prevalence of mental health disorders in people with HIV and the effects on the HIV care continuum”, publicado na revista AIDS em fevereiro de 2023.
Trata-se de um estudo observacional com participantes vivendo com HIV da North American AIDS Cohort Collaboration on Research and Design, cujos dados foram coletados de 2008 a 2018.
Entre 122.896 pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA), 67.643 (55,1%) foram diagnosticadas com um ou mais transtornos de saúde mental: 39% com transtornos depressivos, 28% com transtornos de ansiedade, 10% com transtorno bipolar e 5% com esquizofrenia. A prevalência de transtornos depressivos e de ansiedade aumentou entre 2008 e 2018, enquanto a de transtorno bipolar e esquizofrenia permaneceu estável. Além disso, mais de um transtorno afetou 24% das PVHA.
Por isso, o rastreio é importante, particularmente em PVHA que se enquadrem nas seguintes situações:
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5), o episódio depressivo é identificado por uma combinação de sinais e sintomas presentes diariamente e que persistem por, pelo menos, duas semanas. Os principais são:
Esses sintomas servem como indicadores de depressão, mas podem existir outros não descritos acima.
Os subtipos são:
Atualmente, é possível realizar o diagnóstico de depressão em pessoas que estão passando por um período de luto, quando existem sintomas indicativos e não esperados em um processo de luto normal, como ideação suicida, sintomas psicóticos graves ou intensa perda de energia e prejuízos funcionais.
Conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição (DSM-5), os critérios são:
A. Cinco ou mais sintomas presentes na maior parte do dia, quase todos os dias, por um período mínimo de duas semanas, sendo ao menos um deles o critério 1 ou 2. (Deve-se desconsiderar sintomas claramente atribuídos a condições médicas gerais):
B. Os sintomas causam sofrimento e significativos prejuízos funcionais.
C. Os sintomas não podem ser atribuídos aos efeitos de substâncias ou a outras condições médicas gerais.
D. A ocorrência não é mais bem explicada por outros diagnósticos psiquiátricos.
E. Nunca houve episódios maníacos ou hipomaníacos prévios.
A. Humor deprimido na maior parte do dia, na maioria dos dias, por um período mínimo de dois anos. B. Presença de dois ou mais dos seguintes sintomas:
Apetite diminuído ou aumentado.
C. Durante o período de dois anos, o indivíduo nunca esteve sem os sintomas por mais de dois meses consecutivos.
D. Os critérios para episódios depressivos podem estar presentes de forma contínua ao longo dos dois anos.
E. Ausência de episódios maníacos ou hipomaníacos, e os critérios para ciclotimia nunca foram preenchidos.
F. Os sintomas não são mais bem explicados por outros diagnósticos psiquiátricos.
G. Os sintomas não podem ser atribuídos a outras condições médicas gerais ou ao uso de substâncias.
H. Os sintomas causam sofrimento e significativos prejuízos funcionais.
O diagnóstico diferencial do episódio depressivo precisa ser realizado com um diversidade de condições, principalmente orgânicas. Abaixo estão algumas condições médicas para o diagnóstico diferencial. Eu usei como referência o livro Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria, 1.ª edição.
Outro desafio é fazer o diagnóstico diferencial com outros transtornos mentais. Disforia, irritabilidade ou agitação psicomotora podem indicar transtorno bipolar. Sintomas psicóticos e avolia podem ser confundidos com esquizofrenia. Sintomas depressivos também podem estar presentes nos transtornos alimentares, associados a distorções da imagem corporal, baixa autoestima, desvalia, diminuição de energia e alterações de apetite e peso.
Já as dificuldades de concentração, inquietação, desorganização e eventual déficit de autocuidado podem ser confundidas com o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) apresenta alguns sintomas semelhantes aos da depressão. Além disso, os transtornos de pânico cursam com sintomatologia depressiva de forma mais transitória e relacionada a estressores e adversidades, ou como uma experiência mais persistente e de longo curso ao longo da vida.
Por isso, é necessária uma anamnese detalhada, observação criteriosa e acompanhamento clínico para o correto diagnóstico diferencial.
De acordo com o livro Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (1ª edição) e as diretrizes da European AIDS Clinical Society (13ª edição), se a PVHA faz o tratamento do HIV com efavirenz, a substituição do medicamento é obrigatória. Sabemos que os principais efeitos adversos desse antirretroviral são de ordem neuropsiquiátrica; por isso, ele é contraindicado para PVHA com depressão ou que tenham predisposição ao quadro. Para os demais antirretrovirais, não há necessidade de troca, salvo exceções.
O tratamento para a depressão é determinado pela gravidade dos sintomas, pela preferência do paciente e pelo acesso aos cuidados de saúde. Para a depressão leve (presença de quatro sintomas segundo os critérios diagnósticos), as opções de primeira linha incluem psicoterapias, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), ativação comportamental, terapia interpessoal, terapia de resolução de problemas e psicoterapia baseada em mindfulness (atenção plena). Exercícios físicos e intervenções no estilo de vida também são benéficos, e os medicamentos antidepressivos geralmente não são indicados, a menos que os sintomas persistam ou piorem.
Para a depressão moderada (cinco ou seis sintomas segundo os critérios diagnósticos), tanto medicamentos antidepressivos quanto psicoterapias específicas são recomendados como tratamentos de primeira linha. Medicamentos como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs — ex.: escitalopram e sertralina); os inibidores de recaptação de serotonina-norepinefrina (IRSNs — ex.: venlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina); além de bupropiona, trazodona e mirtazapina, são comumente utilizados. A seleção baseia-se na eficácia, tolerabilidade e fatores específicos da PVHA. A terapia combinada (psicoterapia aliada à medicação) pode ser superior a qualquer uma das duas isoladamente, especialmente para pacientes com comprometimento funcional ou sintomas crônicos.
Para a depressão grave (sete ou mais sintomas segundo os critérios diagnósticos), recomenda-se o tratamento combinado com psicoterapia e medicação antidepressiva, pois isso reduz a recorrência e melhora os resultados em comparação com a monoterapia.
A dosagem deve começar baixa e ser titulada (ajustada) a cada 2 a 4 semanas, com o efeito total esperado entre 8 e 12 semanas. Se o tratamento inicial falhar, as opções incluem a troca de medicamentos, a adição de um segundo antidepressivo ou o incremento com a utilização de um medicamento não antidepressivo. A terapia de manutenção é recomendada por pelo menos 6 meses após a remissão para reduzir o risco de recaída
A ansiedade é um estado mental natural e fundamental para a sobrevivência do ser humano. Ela é suscitada na antecipação de uma ameaça real ou potencial, resultando em um estado de maior vigilância. Porém, quando persistente, disruptiva ou desproporcional ao perigo real, pode se tornar debilitante e ser considerada um transtorno.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª Edição (DSM-5) divide a ansiedade patológica em 7 transtornos principais:
O guideline da European AIDS Clinical Society 13.ª edição sugere o uso da Ferramenta de Triagem de Transtorno de Ansiedade Generalizada-2 (GAD-2), validada para pessoas vivendo com HIV (disponível aqui).
Se a pontuação de corte do GAD-2 for igual ou mais que 3, realizam-se as seguintes perguntas para diagnosticar o transtorno de ansiedade generalizada:
É fundamental o diagnóstico diferencial com outros transtornos de ansiedade e a exclusão de hipertireoidismo, hipoglicemia, hiperadrenocorticismo, doença cardíaca e pulmonar. Também é necessário excluir excesso de cafeína, uso de estimulantes (como cocaína, metanfetamina, anfetaminas) e intoxicação por outros medicamentos .
De acordo com o livro Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria, 1.ª edição, o tratamento para a ansiedade consiste em intervenções tanto farmacológicas quanto psicoterapêuticas, com a escolha adaptada ao transtorno de ansiedade específico, às comorbidades do paciente, às suas preferências e ao seu acesso aos cuidados de saúde.
O tratamento de primeira linha para a maioria dos transtornos de ansiedade inclui a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que possui a base de evidências mais sólida e é recomendada como intervenção primária. A TCC foca na exposição aos estímulos temidos, na reestruturação cognitiva e em habilidades para reduzir a ansiedade e os comportamentos de evitação. Ela pode ser aplicada presencialmente, em sessões de grupo ou por meio de plataformas online, sendo eficaz para o transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade social e transtorno do pânico.
Outras psicoterapias com evidências científicas incluem a terapia de aceitação e compromisso, terapias baseadas em mindfulness (atenção plena), relaxamento aplicado e terapia psicodinâmica, mas nenhuma demonstrou superioridade em relação à TCC.
A farmacoterapia também é uma opção de primeira linha, especialmente para sintomas moderados a graves ou quando a psicoterapia não está disponível. Os agentes mais comumente utilizados são os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) e os inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), que são eficazes para o transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade social e transtorno do pânico. Recomenda-se iniciar com doses mais baixas para minimizar os efeitos adversos, com os efeitos ansiolíticos surgindo, tipicamente, após 2 a 4 semanas.
Quanto aos agentes específicos, a sertralina e o escitalopram (ISRS), bem como a venlafaxina e a duloxetina (IRSN), são frequentemente utilizados, mas nenhum agente ou classe isoladamente demonstra clara superioridade em eficácia. Outras opções incluem os anticonvulsivantes que modulam a sinalização do GABA (como a gabapentina ou a pregabalina), a buspirona e os bloqueadores beta-adrenérgicos.
Por fim, os benzodiazepínicos, como o clonazepam e o lorazepam, podem ser usados para a ansiedade aguda ou ataques de pânico, mas não são a escolha preferencial para o manejo em longo prazo devido ao risco de dependência.
Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.
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