Por Dr. Richard Portier
em 08 de abril de 2026.
A prevalência de osteopenia e osteoporose é significativamente mais elevada em pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA). Dados da metanálise “Optimizing bone health in people living with HIV: insights from a network meta-analysis of randomized controlled trials”, publicado na eClinical Medicine, em fevereiro de 2025, demonstram que essa ocorrência é aproximadamente 2 a 3 vezes maior quando comparada a grupos de controle HIV-negativos.
Ela também revelou que PVHA apresentam uma chance consideravelmente maior de desenvolver essas condições, com uma razão de chance (odds ratio) de 2,4 para a perda óssea na coluna lombar e de 2,6 para o quadril. Esse cenário se torna ainda mais expressivo para aqueles que realizam a terapia antirretroviral (TARV), cujas razões de chance saltam para 2,8 na coluna lombar e 3,4 no quadril.
Dois estudo de coorte específicos, “Prevalence of and risk factors for low bone mineral density in Spanish treated HIV-infected patients”, publicado na PSOS One em abril de 2018, e o “Human Immunodeficiency Virus (HIV) and Menopause Are Independently Associated With Lower Bone Mineral Density: Results From the Women’s Interagency HIV Study”, publicado na Clinical Infectious Disease em agosto de 2022, apontam que a prevalência de baixa densidade mineral óssea (DMO) atinge de 58,9% a 67% desta população, com a osteoporose afetando entre 10% e 13,5% das PVHA.
Corroborando esses dados, o estudo “A multivariate analysis of the impact of HIV infection on the risk of osteoporosis based on the NHANES database”, publicado na Medicine em setembro de 2025, foi análise recente baseada no banco de dados americano NHANES que confirmou que a densidade óssea em PVHA é significativamente menor, elevando o risco de osteoporose.
Ainda de acordo com a primeira metanálise citada, PVHA tendem a desenvolver osteoporose cerca de uma década mais cedo do que a população geral. Os fatores de risco incluem causas tradicionais — como idade avançada, baixo índice de massa corporal (IMC), etnia hispânica ou caucasiana, tabagismo, histórico prévio de fraturas e deficiência de vitamina D — somados a fatores específicos do HIV, a exemplo da baixa contagem de células CD4, lipodistrofia, baixos níveis de testosterona e o uso do tenofovir desoproxila no tratamento.
De acordo com o artigo “Recommendations for evaluation and management of bone disease in HIV”, publicado pela The Infectious Diseases Society of America (IDSA) em 2015, e o guideline da European AIDS Clinical Society (EACS), o rastreio da osteopenia e da osteoporose em PVHA não é igual ao da população geral e exige uma abordagem específica:
A ferramenta de avaliação de risco de fratura (FRAX) deve ser utilizada inicialmente para os seguintes grupos:
A densitometria óssea deve ser solicitada de imediato nos seguintes cenários:
A interpretação varia conforme o perfil da PVHA:
De acordo com o artigo “Recommendations for evaluation and management of bone disease in HIV”, publicado pela The Infectious Diseases Society of America (IDSA) em 2015, e o guideline da European AIDS Clinical Society (EACS), para PVHA que apresentam osteopenia associada à deficiência de vitamina D, o tratamento deve consistir na suplementação de vitamina D e cálcio, sem a prescrição de bisfosfonatos, até que a deficiência da vitamina seja completamente resolvida. Nesses casos, a densitometria óssea (DXA) deve ser repetida em um ano para monitorar a resposta clínica.
Para PVHA diagnosticados com osteoporose ou com histórico prévio de fratura por fragilidade, a intervenção combinada com vitamina D, cálcio e um bisfosfonato — ou outro medicamento específico — é plenamente justificada.
Os bisfosfonatos são considerados seguros e eficazes na melhoria da densidade mineral óssea (DMO) em PVHA, sendo úteis inclusive para atenuar a queda inicial da DMO que frequentemente ocorre após o início da terapia antirretroviral (TARV). No entanto, é fundamental que, antes de iniciar o uso de qualquer bisfosfonato, a osteomalácia seja obrigatoriamente excluída, uma vez que o tratamento na presença dessa condição poderia agravar a fragilidade e aumentar o risco de fraturas. As causas mais comuns de osteomalácia nesta população incluem a perda renal de fosfato induzida pelo uso do tenofovir e a própria deficiência prolongada de vitamina D.
A metanálise “Optimizing bone health in people living with HIV: insights from a network meta-analysis of randomized controlled trials”, publicada na eClinicalMedicine em fevereiro de 2025, evidenciou resultados distintos entre as os bisfosfonatos. O estudo demonstrou que o ácido zoledrônico intravenoso apresentou os melhores resultados, melhorando a DMO da coluna lombar e do quadril total, além de proporcionar reduções significativas nos marcadores de reabsorção óssea. O alendronato, por sua vez, demonstrou redução significativa apenas nos marcadores de reabsorção óssea, mas sem melhorias expressivas na DMO. Já o denosumabe, embora seja aprovado pelo FDA para o tratamento da osteoporose em diversas populações com alto risco de fratura, ainda possui dados limitados especificamente para o contexto das PVHA. Por esse motivo, é considerado um tratamento de segunda linha, sendo indicado para PVHA que apresentam intolerância ou contraindicação absoluta aos bisfosfonatos.
Por fim, como parte complementar e essencial do tratamento, deve-se retirar a substituir o tenofovir desoproxila fumarato (TDF). Em conjunto com o manejo medicamentoso, as PVHA devem ser orientadas a incorporar modificações fundamentais no estilo de vida. Recomenda-se a prática regular de exercícios resistidos, que são essenciais para o estímulo e a formação óssea, a manutenção de uma ingestão adequada de cálcio na dieta e a exposição solar frequente para auxiliar na síntese de vitamina D. Além disso, a cessação do tabagismo e a limitação do consumo de álcool são medidas indispensáveis para a preservação e a recuperação da saúde óssea.
De acordo com o protocolo da European AIDS Clinical Society, 13.ª edição, a insuficiência de vitamina D apresenta uma prevalência de até 80% em coortes de pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) e foi associada a um risco aumentado de osteoporose, diabetes tipo 2, mortalidade e eventos relacionado à AIDS.
A vitamina D é produzida em nosso corpo a partir da exposição à luz solar — entre 20 a 30 minutos de exposição sem protetor solar, todos os dias, costuma ser o suficiente para manter níveis adequados. Além disso, conseguimos obter vitamina D por meio de alimentos como carnes, peixes, frutos do mar, laticínios, alguns queijos, manteiga, ovos e certos vegetais (como cogumelos).
Porém, poucas PVHA se expõem ao sol o suficiente para manter bons níveis, e a quantidade de vitamina D adquirida apenas pelos alimentos é muito baixa. Isso explica a alta prevalência de insuficiência nessa população.
Antes de iniciar o tratamento, é necessário realizar o diagnóstico de deficiência ou insuficiência por meio do exame de sangue de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D]. O protocolo classifica os níveis da seguinte forma:
O objetivo de tratar a deficiência de vitamina D é restaurá-la para níveis suficientes. A dose pode variar de 400 UI a 14.000 UI por dia, dependendo do resultado do exame e da resposta individual do paciente. O livro “Endocrinologia Clínica”, 7.ª edição, sugere:
Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.
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