Por Dr. Richard Portier
em 04 de abril de 2026.
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) é caracterizada por esteatose hepática afetando mais de 5% dos hepatócitos, conforme observado na histologia ou em exames de imagem do fígado, juntamente com a presença de pelo menos uma condição metabólica. O termo MASLD foi introduzido para substituir a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) e reflete uma mudança para um diagnóstico positivo e baseado em inclusão, em vez de um diagnóstico por exclusão.
Existem dois tipos de MASLD:
A gravidade da MASH pode ser estratificada de acordo com o estágio da fibrose:
O carcinoma hepatocelular (CHC) pode ocorrer mesmo na ausência de cirrose ou de características histológicas da MASH.
A prevalência da MASLD em pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) varia de 19% a 52%, dependendo da população estudada e dos métodos diagnósticos utilizados. Estudos recentes em larga escala, usando a nova nomenclatura MASLD, relatam taxas de prevalência de 26,6% a 39%.
A meta-análise “Prevalence and Characteristics of Nonalcoholic Fatty Liver Disease and Fibrosis in People Living With HIV Monoinfection: A Systematic Review and Meta-analysis”, publicada na Clinical Gastroenterology and Hepatology em janeiro de 2023, que incluiu 43 estudos e um total de 8.230 PVHA, descobriu que a prevalência combinada geral de NAFLD (a terminologia anterior) foi de 33,9% e a de fibrose hepática moderada de 12%, com base em exames de imagem.
Ao aplicar os critérios mais recentes da MASLD, um estudo multicêntrico nos EUA, “Prevalence of steatotic liver disease, MASLD, MetALD and significant fibrosis in people with HIV in the United States”, publicado na Alimentary Pharmacology & Therapeutics em março de 2024 com 1.065 participantes, descobriu que 39% tinham MASLD e um adicional de 10% apresentavam doença hepática associada ao álcool e à disfunção metabólica (MetALD), tornando a doença hepática esteatótica a causa dominante de doença hepática nesta população.
Por fim, o estudo “Metabolic dysfunction-associated fatty liver disease in people living with HIV”, publicado na Scientific Reports em junho de 2023, que utilizou a elastografia transitória controlada por vibração para o diagnóstico, relatou uma prevalência de MASLD de 26,6% entre 282 PVHA.
De acordo com protocolo da European AIDS Clinical Society 13.ª edição, a ultrassonografia é a modalidade de imagem de primeira linha preferencial para a detecção de esteatose hepática na MASLD.
Quando as ferramentas de imagem estão indisponíveis ou são inviáveis, biomarcadores séricos e sistemas de pontuação — como o Índice de Esteatose Hepática (Hepatic Steatosis Index) e o Índice de Fígado Gorduroso (Fatty Liver Index) — são alternativas aceitáveis para o diagnóstico.
Em centros com experiência, a elastografia transitória com Parâmetro de Atenuação Controlada (CAP) pode ser utilizada para diagnosticar a MASLD associada ao HIV. No entanto, nenhum ponto de corte (cut-off) padronizado foi estabelecido. Um número limitado de estudos propôs pontos de corte variando de 248 dB/m a 285 dB/m.
Técnicas baseadas em ressonância magnética (RM), como a espectroscopia por RM e a RM-PDFF, fornecem uma estimativa quantitativa da gordura hepática. Embora sejam valiosas em ensaios clínicos e pesquisas, seu alto custo limita o uso clínico rotineiro.
O diagnóstico de esteato-hepatite associada à MASH requer uma biópsia hepática, evidenciando esteatose, balonização de hepatócitos e inflamação lobular.
Nas PVHA, o objetivo principal na avaliação da MASLD é rastrear a fibrose hepática avançada em indivíduos em risco, dada a sua associação com doenças cardiovasculares, malignidade e mortalidade relacionada ao fígado. Devido à alta prevalência de disfunção metabólica e à potencial hepatotoxicidade da terapia antirretroviral, a identificação precoce da fibrose é fundamental para uma intervenção oportuna e para a melhoria dos desfechos relacionados ao fígado. Para isso, o protocolo sugere o seguinte fluxograma diagnóstico para avaliar e monitorar a gravidade da doença em casos de suspeita de MASLD e fatores de risco metabólico.
Público-alvo: PVHA em risco de MASLD (Critérios de risco: qualquer um entre esteatose hepática no ultrassom, diabetes tipo 2/pré-diabetes, sobrepeso, síndrome metabólica, elevação de ALT, exposição a medicamentos antirretrovirais da classe dos análogos da timidina [d-drugs]).
Passo 1: Avaliação do escore FIB-4.
A PVHA deve ser avaliada com base no resultado do FIB-4, seguindo um dos três caminhos abaixo:
Caminho A: FIB-4 menor que 1.30 (risco baixo).
Caminho B: FIB-4 entre 1.30 e 2.67 (risco intermediário).
Caminho C: FIB-4 > 2.67 (risco alto).
A semaglutida, comercializada no Brasil como Ozempic® e Wegovy®, é um análogo do GLP-1 com 94% de homologia de sequência com o GLP-1 humano, que se liga seletivamente e ativa o receptor de GLP-1. Seus principais mecanismos incluem:
O estudo “Open-Label Semaglutide Reduces Metabolic-Associated Steatotic Liver Disease in People With HIV: SLIM LIVER”, publicado no periódico Annals of Internal Medicine em junho de 2024, foi um ensaio clínico de fase IIb, de braço único e aberto, que acompanhou cerca de 50 PVHA em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável.
Esses pacientes apresentavam MASLD — definida pela presença de pelo menos 5% do volume do fígado composto por gordura. Como intervenção, os participantes receberam 1 mg de semaglutida semanalmente ao longo de 24 semanas, e a gordura hepática foi quantificada por meio de ressonância magnética (MRI-PDFF).
Como resultado, observou-se uma queda estatisticamente significativa na gordura do fígado, com cerca de 58% dos participantes alcançando uma redução relativa de 30% ou mais. Além disso, 29% das PVHA tiveram a resolução completa da MASLD.
Os autores concluíram que a semaglutida é uma ferramenta terapêutica segura e eficaz para o tratamento da MASLD, sendo capaz de reverter o acúmulo de gordura no fígado em PVHA e de mitigar simultaneamente os riscos cardiovasculares e metabólicos associados.
Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.
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