Por Dr. Richard Portier
em 07 de abril de 2026.
Doença cardiovascular é o termo usado para descrever problemas no coração e nos vasos sanguíneos, como o infarto agudo do miocárdio (ataque cardíaco), o acidente vascular cerebral (derrame), angina (dor no peito), cardiomiopatia (coração aumentado), hipertensão (pressão alta) e distúrbios valvares, entre outros.
A artigo “Prevalence and risk factors of high cholesterol and triglycerides among people with HIV in Texas”, publicado na revista AIDS Research and Therapy em setembro de 2022, foi um estudo transversal que analisou dados de 981 pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA), coletados entre 2015 e 2017 por meio dos Projetos de Monitoramento Médico do Texas e de Houston. Os autores definiram a presença de dislipidemia quando o paciente apresentava colesterol total igual ou acima de 200 mg/dL, triglicerídeos iguais ou acima de 150 mg/dL, ou quando havia registro em prontuário de tratamento medicamentoso para a condição.
Dos 981 participantes, 41% apresentavam colesterol ou triglicerídeos altos (n = 400). Destes, 40% estavam com sobrepeso e 36% com obesidade.
Os fatores de risco identificados foram idade, índice de massa corporal (IMC) e diabetes mellitus (DM). Pacientes nas faixas etárias de 40 a 49, 50 a 59 e ≥ 60 anos apresentaram uma prevalência 57%, 64% e 62% maior, respectivamente, em comparação com aqueles de 18 a 39 anos. Indivíduos com sobrepeso (IMC entre 25 e 29,9 kg/m²) e obesidade (IMC maior ou igual a 30 kg/m²) tiveram, respectivamente, 41% e 30% mais chances de desenvolver o quadro se comparados a pessoas com peso normal (IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m²). Por fim, aqueles que apresentavam DM tiveram uma probabilidade quase duas vezes maior de desenvolver dislipidemia em comparação com os não diabéticos.
Como níveis elevados de colesterol e triglicerídeos são fatores de risco cardiovasculares modificáveis, os autores concluem que intervenções focadas em educação e mudanças no estilo de vida (como dieta e exercícios), aliadas ao tratamento farmacológico com estatinas, são altamente necessárias e recomendadas para o manejo da dislipidemia em PVHA.
Em novembro de 2023, a British HIV Association (BHIVA) publicou um breve protocolo sobre o uso de estatinas para a prevenção primária de eventos cardiovasculares em PVHA, intitulado “BHIVA rapid guidance on the use of statins for primary prevention of cardiovascular disease in people living with HIV”. Esse protocolo foi baseado no estudo REPRIEVE, publicado em agosto de 2023 no New England Journal of Medicine, com o título “Pitavastatin to Prevent Cardiovascular Disease in HIV Infection”.
Na introdução do artigo, os autores citam estudos sugerindo que as PVHA, mesmo com carga viral indetectável, possuem um risco cardiovascular maior quando comparadas à população em geral. O mecanismo exato ainda não é totalmente compreendido, mas acredita-se que exista uma inflamação residual e ativação imune constantes.
Por isso, foi desenhado o estudo randomizado de fase 3 “Randomized Trial to Prevent Vascular Events in HIV (REPRIEVE)”, com o objetivo de determinar se o uso de estatinas ajuda na prevenção de doenças cardiovasculares ateroscleróticas em PVHA com risco baixo a moderado.
Foram incluídas PVHA em terapia antirretroviral com idades entre 40 e 75 anos. Todos os participantes apresentavam risco cardiovascular baixo a moderado, determinado pela calculadora de risco Pooled Cohort Equations de 2013, da American Heart Association e do American College of Cardiology. Pessoas com histórico de uso de estatinas nos últimos 90 dias e com doença cardiovascular aterosclerótica conhecida foram excluídas do estudo.
Os participantes foram randomizados na proporção de 1:1 para receber pitavastatina 4 mg ou placebo. A randomização ocorreu de acordo com o sexo e a contagem de linfócitos CD4 (≤ 500 ou > 500 células/mm³). Todos receberam orientações sobre mudanças no estilo de vida.
O desfecho primário foi a ocorrência de um evento cardiovascular maior, definido como: morte por doença cardiovascular; infarto agudo do miocárdio; hospitalização por angina instável; acidente vascular cerebral; isquemia arterial periférica; revascularização coronariana, carotídea ou periférica; ou morte por causa desconhecida. Desfechos secundários também foram analisados, porém, para manter a objetividade, não serão comentados aqui.
Entre março de 2016 e julho de 2019, 10.865 pessoas foram rastreadas em 12 países. Destas, 7.769 foram incluídas (3.888 no grupo pitavastatina e 3.881 no grupo placebo). A idade média foi de 50 anos; 5.065 (65,2%) eram não brancos e 2.419 (31,1%) eram mulheres.
A média do LDL foi de 108 mg/dL; a contagem média de linfócitos CD4 foi de 621 céls/mm³; e a média do risco cardiovascular foi de 4,5%, em uma escala de baixo risco (< 5%), risco limítrofe (5 a 7,5%), risco moderado (7,5 a 20%) e alto risco (> 20%). A carga viral estava indetectável em 5.250 (87,5%) participantes. Nos 747 indivíduos com carga viral detectável, a média foi de 62 cópias/mL.
O acompanhamento durou, em média, 5,1 anos. Um total de 6.452 participantes (83%) permaneceu no estudo; destes, 5.664 (2.910 no grupo pitavastatina e 2.754 no grupo placebo) continuavam sendo acompanhados no momento da publicação. O tratamento foi descontinuado devido a efeitos colaterais por 82 (2,1%) pessoas no grupo pitavastatina e 46 (1,2%) no grupo placebo.
A incidência de um evento cardiovascular maior foi de 4,81 para cada 1.000 pessoas-ano no grupo pitavastatina e 7,32 para cada 1.000 pessoas-ano no grupo placebo (Razão de Risco [HR], 0,65; Intervalo de Confiança [IC] de 95%, 0,48 a 0,90; P = 0,002).
Os efeitos colaterais foram similares nos dois grupos. Uma pessoa de cada grupo teve o tratamento descontinuado por desenvolver diabetes, enquanto 44 (1,1%) do grupo pitavastatina e 21 (0,5%) do grupo placebo descontinuaram o tratamento devido a mialgia (dor muscular).
O estudo foi interrompido precocemente devido ao benefício significativamente superior observado no grupo pitavastatina, que apresentou uma redução de 35% na incidência de eventos cardiovasculares maiores em relação ao grupo placebo.
Os autores concluíram que, em PVHA em terapia antirretroviral e com baixo a moderado risco cardiovascular, o uso diário de pitavastatina diminuiu o risco de eventos cardiovasculares maiores durante um acompanhamento médio de 5 anos.
De acordo com o protocolo “BHIVA rapid guidance on the use of statins for primary prevention of cardiovascular disease in people living with HIV”, as recomendações sobre como realizar a prevenção cardiovascular em PVHA são:
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