Por Dr. Richard Portier
em 03 de abril de 2026.
O sobrepeso e a obesidade resultam de uma variedade de fatores, mas ocorrem, principalmente, por um desequilíbrio entre as calorias consumidas e gastas, o que leva ao acúmulo de gordura. Esse acúmulo de gordura é distribuído em todo o corpo, diferentemente da lipohipertrofia.
A prevalência entre pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) varia de aproximadamente 18% a 49%, dependendo da localização geográfica, das características da população e da metodologia do estudo. Dados recentes mostram que a obesidade tem se tornado cada vez mais comum nessa população, particularmente entre aqueles em terapia antirretroviral (TARV).
Nos Estados Unidos, o estudo “Obesity Among HIV-Infected Adults Receiving Medical Care in the United States: Data From the Cross-Sectional Medical Monitoring Project and National Health and Nutrition Examination Survey”, publicado no periódico Medicine em 2015, revelou que a obesidade afetava aproximadamente 40% das mulheres e 20% dos homens vivendo com HIV/AIDS que recebiam cuidados médicos.
Dados mais recentes no Benin, do estudo “Prevalence and associated factors of overweight and obesity among people living with HIV on antiretroviral therapy in a national hospital in Benin”, publicado no periódico Scientific Reports em 2025, mostraram uma prevalência combinada de sobrepeso e obesidade de 49,4% entre PVHA em TARV, com taxas significativamente maiores no sexo feminino (36,8%) do que no sexo masculino (12,6%).
O estudo finlandês “Prevalence of obesity and disturbances in glucose homeostasis in HIV-infected subjects and general population – missed diagnoses of diabetes?”, publicado no periódico HIV Medicine em 2021, comparou PVHA com a população em geral e descobriu que, embora as PVHA apresentassem uma menor prevalência de obesidade (18,2% contra 23,9%), elas tinham taxas mais altas de resistência à insulina e de glicemia de jejum alterada para um mesmo índice de massa corporal.
Por fim, o estudo brasileiro “Sobrepeso e obesidade em pessoas que vivem com HIV”, publicado em 2021, foi realizado em cinco Serviços de Atendimento Especializado (SAE) no interior paulista, no período de outubro de 2014 a outubro de 2016, com PVHA em tratamento. Das 340 PVHA investigadas, 57,9% eram do sexo masculino e a idade média foi de 44 anos. A obesidade foi encontrada em 52 pacientes (15,3%) e o sobrepeso em 110 (32,4%).
A forma de realizar o diagnóstico da obesidade na PVHA é semelhante à da população geral. De acordo com o consenso “Definition and diagnostic criteria of clinical obesity”, publicado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology em janeiro de 2025, e o livro Endocrinologia Clínica, 7ª edição, podemos avaliar a obesidade com os seguintes métodos:
A semaglutida, comercializada no Brasil como Ozempic® e Wegovy®, é um análogo do GLP-1 com 94% de homologia de sequência com o GLP-1 humano, que se liga seletivamente e ativa o receptor de GLP-1. Seus principais mecanismos incluem:
O artigo “Weight Loss Associated with Semaglutide Treatment Among People with HIV”, publicado no periódico AIDS em março de 2024, foi um estudo observacional que utilizou a coorte da Rede de Sistemas Clínicos Integrados (CNICS) dos Centros de Pesquisa em AIDS dos EUA. No total, 222 PVHA preencheram os critérios de inclusão. O seguimento médio foi de 1,1 ano.
Aproximadamente 75% das PVHA em uso de semaglutida eram homens; a idade média era de 53 anos; o peso médio era de 108 kg; e o IMC médio era de 35,5 kg/m². No início do estudo, 97% estavam em terapia antirretroviral e 89% estavam com a carga viral indetectável (menor que 50 cópias/ml). A maioria (69,6%) recebeu doses baixas de semaglutida injetada por via subcutânea (0,25, 0,5 e 1 mg), enquanto 19,2% receberam doses altas (1,7, 2 e 2,4 mg).
Na análise dos resultados, o tratamento com semaglutida foi associado a uma perda de peso média de 6,5 kg em 1 ano. As reduções de peso foram: -4,1 kg em PVHA com IMC normal; -4,6 kg em PVHA com excesso de peso; -5,4 kg em PVHA com obesidade grau 1; -7,6 kg em PVHA com obesidade grau 2; e -8,8 kg em PVHA com obesidade grau 3.
Os pesquisadores concluíram que o tratamento foi associado à perda significativa de peso entre PVHA com obesidade, comparável aos resultados de estudos anteriores na população em geral.
A tirzepatida (Mounjaro®) é um peptídeo sintético de 39 aminoácidos baseado na sequência de aminoácidos do GIP com uma porção de diácido graxo C20, proporcionando uma meia-vida de aproximadamente 5 dias para dosagem uma vez por semana. Ela ativa tanto o receptor de GIP (GIPR) quanto o receptor de GLP-1, com várias características distintivas, além das citadas acima:
Dados de comparação direta demonstram que a tirzepatida proporciona maior controle glicêmico e redução de peso do que a semaglutida, fatores atribuíveis à melhora da glicose em jejum, ao aprimoramento da função das células β (beta), à maior sensibilidade à insulina e a uma supressão mais pronunciada do glucagon.
O primeiro estudo em PVHA com tirzepatida, “Real-world outcomes of tirzepatide use in people with HIV with and without diabetes”, abstract 696, apresentado na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) 2026, em Denver, nos EUA, foi um estudo de mundo real que focou nos desfechos metabólicos em PVHA usando tirzepatida (Mounjaro®) para perda de peso ou tratamento de diabetes.
As PVHA incluídas no estudo foram atendidas na Clínica Owen da Universidade da Califórnia, San Diego. A tirzepatida foi prescrita entre maio de 2022 e dezembro de 2024, com um mínimo de 6 meses de acompanhamento. As PVHA que haviam recebido anteriormente agonistas do receptor de GLP-1 para tratamento foram excluídas do estudo. As medidas de peso, alterações na hemoglobina glicada e pressão arterial foram coletadas trimestralmente durante 12 meses.
Foram incluídas 61 PVHA no estudo, sendo 67,2% homens e 52,5% pessoas brancas. A mediana de idade foi de 51 (39-59) anos. Um total de 62,3% dos pacientes fazia a terapia antirretroviral com tenofovir alafenamida associado a um inibidor da integrase de segunda geração, como o dolutegravir. As alterações médias no peso foram de -7,2 kg aos 3 meses, -12,2 kg aos 6 meses, -12,9 kg aos 9 meses e -15,4 kg aos 12 meses, todas consideradas estatisticamente significativas.
Outros desfechos secundários demonstraram melhorias estatisticamente significativas no IMC (-4,8 kg/m², p<0,001), hemoglobina glicada (-1,6% em pacientes diabéticos, p=0,005), pressão arterial sistólica (-5,9 mmHg, p=0,02), colesterol HDL (+4,7 mg/dL, p=0,002) e escore de risco de doença cardiovascular aterosclerótica (-3,0%, p=0,0005), sugerindo que o uso de tirzepatida pode melhorar o peso, bem como uma variedade de outros fatores cardiometabólicos.
No entanto, 24,5% das PVHA descontinuaram o tratamento, tendo como principais obstáculos: efeitos adversos em 6 casos, falta de eficácia em 1 caso e dificuldades para adquirir o medicamento em 8 casos.
Os pesquisadores concluíram que as PVHA observaram benefícios nos níveis de hemoglobina glicada, na pressão arterial e na perda de peso, sem alterar a carga viral para o HIV, mas que a taxa de descontinuação, especialmente devido a problemas relacionados ao seguro de saúde ou fornecimento, continua sendo um desafio.
O artigo “The Impact of Semaglutide on Weight Loss and Inflammation in People with HIV: An Observational Prospective Study in Greek Population”, publicado na Experimental and Clinical Endocrinology & Diabetes em fevereiro de 2026, foi um estudo observacional prospectivo incluiu PVHA com diabetes tipo 2 acompanhadas na Unidade de HIV do Hospital Universitário Geral de Alexandroupolis, na Grécia, comparando-as a um grupo controle pareado de pessoas sem a infecção. Todos os participantes receberam semaglutida com aumento gradual da dose até 1 mg por semana.O Índice de Massa Corporal (IMC), a hemoglobina glicada (HbA1c) e a relação CD4/CD8 foram registrados no início do estudo e aos 6, 12, 18 e 24 meses.
Cinquenta participantes (25 PVHA e 25 no grupo controle) foram incluídos. Os resultados após 24 meses de acompanhamento foram:
Os autores concluíram que a semaglutida se apresenta como uma opção terapêutica altamente eficaz e segura para redução de peso e controle inflamatório em PVHA.
Para responder a essa pergunta, utilizei como referência o artigo “The Bounce-back Effect: What Happens After Cessation of Low-dose Semaglutide in People With HIV”, publicado na revista Clinical Infectious Diseases em março de 2026.
Este estudo investigou o que acontece após a interrupção do uso da semaglutida no tratamento da obesidade e da doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) em PVHA. Parte do ensaio clínico SLIM LIVER, a pesquisa acompanhou 49 adultos com idade mediana de 52 anos, índice de massa corporal (IMC) médio de 35 kg/m² e diagnóstico de MASLD. Durante a primeira fase, os participantes receberam uma dose semanal baixa de semaglutida (1 mg) por 24 semanas, o que resultou em uma perda média de peso de 7,8 kg, além de reduções na gordura acumulada no fígado, na glicemia de jejum e nos triglicerídeos séricos.
Após esse período inicial de tratamento, a medicação foi totalmente suspensa e os pacientes continuaram sendo monitorados por mais 24 semanas para avaliar o chamado “efeito rebote”. Sem o medicamento, observou-se um ganho de peso médio rápido de 2,9 kg, acompanhado por um aumento de 2 centímetros na circunferência da cintura e uma piora de 5,1 mg/dL na glicemia de jejum. Mais da metade dos participantes reganhou pelo menos 2,27 kg nessa fase, embora fatores como pressão arterial e níveis de colesterol (total e LDL) não tenham sofrido uma reversão imediata ou significativa. Apesar disso, 60% dos pacientes chegaram à semana 48 mantendo uma perda de peso residual de pelo menos 2,27 kg em relação ao início do estudo.
Esses resultados levaram os pesquisadores a concluir que, de forma muito semelhante ao que ocorre na população em geral, as PVHA que suspendem o uso da semaglutida sofrem um rápido reganho de peso e perdem uma parcela considerável da proteção cardiometabólica que haviam alcançado. O estudo evidencia que tanto a obesidade quanto a esteatose hepática metabólica exigem um manejo crônico e de longo prazo.
Essa também é a recomendação da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, publicada pela ABESO em 2026. Em geral, o tratamento de manutenção deve ser realizado com o mesmo medicamento selecionado para o tratamento inicial. A duração ideal e a dosagem do medicamento para manutenção do peso perdido e prevenção do ganho de peso ainda são desconhecidas e devem ser avaliadas individualmente, com atenção ao perfil de segurança e eficácia a longo prazo.
Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.
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