ARTIGOS

Descubra qual é a expectativa de vida nas pessoas vivendo com HIV/AIDS

Por Dr. Richard Portier

em 04 de abril de 2026.

A expectativa de vida é o número médio de anos que uma pessoa pode esperar viver. Mais precisamente, é o número médio de anos que um indivíduo de uma determinada idade deve viver se as atuais taxas continuarem a se aplicar.

Por exemplo, no Brasil, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou em 3 meses e 4 dias de 2017 para 2018, alcançando 76,3 anos. Desde 1940, já são 30,8 anos a mais. Para as mulheres, espera-se maior longevidade: 79,9 anos. Já para os homens, 72,8 anos. Ou seja, a expectativa de vida é uma estimativa, e nem sempre o IBGE tem acesso a todas as informações relevantes.

Já para o cálculo da expectativa de vida das pessoas que vivem com HIV/AIDS (PVHA), existem estimativas de acordo com a idade das pessoas no momento do diagnóstico e da contagem de linfócitos CD4, mas sem muitas informações sobre diversos outros fatores, como hábitos de vida, questões genéticas e sociais, que são individuais.

Como o HIV é uma infecção relativamente recente e o tratamento mudou frequentemente nas últimas décadas, é difícil saber se o agora será semelhante ao futuro. No momento, há um grande número de PVHA entre 20 e 70 anos. Mas temos pouca experiência com idades maiores que 70 anos; portanto, sabemos menos sobre o impacto que o vírus pode ter nos idosos.

Além disso, a tendência é que a assistência médica, e a própria medicina, evoluam no futuro, com antirretrovirais com menos efeitos colaterais, com adesão mais fácil e mais eficácia na supressão do vírus no longo prazo.

Expectativa de vida na América Latina

O artigo “Estimated life expectancy gains with antiretroviral therapy among adults with HIV in Latin America and the Caribbean”, publicado na revista The Lancet HIV em 2021, demonstrou o impacto da terapia antirretroviral (TARV) na longevidade das PVHA na nossa região. Os pesquisadores realizaram um estudo de coorte retrospectiva multicêntrica utilizando dados da rede CCASAnet, englobando pacientes do Caribe e das Américas Central e do Sul.

A pesquisa acompanhou o histórico de 30.688 pacientes com 16 anos ou mais que iniciaram o tratamento antirretroviral entre os anos de 2003 e 2017. Esse grande grupo foi dividido entre 17.491 indivíduos do Haiti e 13.197 de outros países, como Brasil, Argentina, Chile, Honduras, México e Peru. O objetivo foi calcular a expectativa de vida aos 20 anos de idade, segmentando todo o período do estudo em três fases distintas de início do tratamento para observar a evolução temporal de forma mais clara.

Nos países avaliados fora o Haiti, a expectativa de vida para um jovem de 20 anos saltou de 31,0 anos adicionais no período inicial da pesquisa (2003 a 2008) para 69,5 anos no total no período mais recente analisado (2013 a 2017), aproximando-se significativamente da longevidade da população em geral, ficando com uma defasagem inferior a dez anos.

No entanto, o sucesso da terapia antirretroviral não eliminou completamente as desigualdades sociais e de saúde. Permaneceram disparidades, como o diagnóstico tardio (evidenciado pela baixa contagem de células CD4), o nível de escolaridade, o histórico de coinfecção por tuberculose, além do sexo biológico e da via de transmissão do vírus.

Os autores concluíram que a ampliação do acesso à terapia antirretroviral transformou de maneira significativa a expectativa de vida das PVHA. Contudo, as disparidades remanescentes ressaltam a necessidade contínua de voltar as atenções para as populações mais vulneráveis.

Expectativa de vida na América do Norte e na Europa

O artigo “Life expectancy after 2015 of adults with HIV on long-term antiretroviral therapy in Europe and North America”, publicado na revista The Lancet HIV em 2023, combinou dados de diversas coortes europeias e norte-americanas. O objetivo foi estimar a expectativa de vida a partir do ano de 2015 para PVHA em terapia antirretroviral há pelo menos um ano.

Os pesquisadores analisaram os registros médicos de 206.891 PVHA, todas com 16 anos ou mais no momento em que iniciaram o tratamento. A métrica adotada projetou os anos de vida restantes para um paciente que atingiu os 40 anos de idade. As informações foram cruzadas e estratificadas com base no sexo biológico, no período em que a terapia foi iniciada (antes ou a partir de 2015) e na contagem de células CD4.

Para as PVHA que apresentavam uma contagem de CD4 igual ou superior a 500 células, a expectativa de vida projetada ficou próxima à da população em geral. Especificamente, mulheres que vivem com HIV aos 40 anos podem viver mais 40 a 42 anos, encostando nos 45,8 anos projetados para a população feminina geral. O cenário é semelhante para os homens vivendo com HIV aos 40 anos, que acrescentariam de 38 a 39 anos de vida, um valor que acompanha de perto os 40,7 anos esperados para a população masculina geral. Por outro lado, para as PVHA que iniciaram o acompanhamento médico com contagem abaixo de 49 células, a expectativa aos 40 anos adicionaria apenas entre 19 e 24 anos à sua vida.

Os autores concluíram que uma pessoa de 40 anos vivendo com HIV na Europa ou na América do Norte, que mantenha um tratamento contínuo e tenha uma boa resposta imunológica, pode viver até perto dos 80 anos de idade. Além disso, ressaltam a importância do diagnóstico precoce e do imediato início do tratamento para garantir uma vida longa e saudável.

Prevalência de doenças endócrinas

Com o aumento da expectativa de vida das PVHA, aumentaram a prevalência de doenças crônicas, principalmente de doenças endócrinas.

O artigo “Comorbidities and co-medications among 28 089 people living with HIV: A nationwide cohort study from 2009 to 2019 in Japan”, publicado na revista HIV Medicine em novembro de 2021, foi um estudo com 28.089 PVHA entre 2009 e 2019, 22.881 (81,5%) foram diagnosticadas com doenças crônicas. Destas, 10.020 (35,7%) tinham três ou mais comorbidades. Os problemas mais frequentes foram diabetes (42,8%), dislipidemia (colesterol e/ou triglicerídeos altos) (39,7%), transtornos psiquiátricos (28,7%), hipertensão (pressão alta) (24,2%) e osteoporose (12,7%).

Complicações desses problemas também foram prevalentes. As mais frequentes foram doenças cardiovasculares, como infarto e AVC (11,1%), câncer não relacionado à AIDS (8,8%) e doença renal crônica (5,8%).

Outro dado importante é a quantidade de doenças crônicas por idade. Na faixa de 20 a 29 anos, 55% dos pacientes tinham pelo menos uma comorbidade. Com o avanço das faixas etárias, essa porcentagem foi aumentando: entre 30 e 39 anos, 70% tinham pelo menos uma doença crônica; entre 40 e 49 anos, 82%; entre 50 e 59 anos, 89%; e, acima de 60 anos, mais de 90%.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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