Por Dr. Richard Portier
em 03 de abril de 2026.
A lipohipertrofia associada ao HIV refere-se ao acúmulo anormal e localizado de gordura, mais comumente no compartimento intra-abdominal — chamado de tecido adiposo visceral (TAV) —, nas mamas, na área dorsocervical (giba) e/ou como acúmulos discretos sob a pele (lipomas). A lipohipertrofia pode ocorrer em mais de uma região simultaneamente, com ou sem perda concomitante de gordura periférica nos membros ou na face.
Sua prevalência varia de aproximadamente 10% a 79%, dependendo da população estudada, dos critérios diagnósticos utilizados e dos locais anatômicos específicos avaliados. Essa ampla variação reflete as diferenças na metodologia do estudo, na demografia dos pacientes e nos esquemas terapêuticos.
O estudo suíço “Lipohypertrophy and metabolic disorders in HIV patients on antiretroviral therapy: a systematic multidisciplinary clinic approach”, apresentado no Congresso HIV Drug Therapy, em Glasgow, em 2014, foi realizado no “Groupe Lipo & Metabolism”. Trata-se de uma consulta multidisciplinar na qual as PVHA passam por uma avaliação que inclui um questionário, exame físico, absorciometria de raios X de dupla energia (DEXA) e tomografia computadorizada (TC) no nível de L5, além de exames de sangue.
Com base em dados coletados prospectivamente, foram incluídas as pessoas vivendo com HIV (PVHA) que compareceram à consulta entre 2008 e 2013. A lipohipertrofia foi definida como um TAV abdominal maior que 130 cm², medido por meio da tomografia computadorizada (o método padrão-ouro), pois esse valor está associado a um risco aumentado de eventos cardiovasculares.
Ao todo, 195 PVHA compareceram à consulta durante o período do estudo. Dentre os participantes que realizaram a tomografia computadorizada (n = 183), 46 (25%) apresentavam lipohipertrofia com um TAV maior que 130 cm². Nesse grupo, a média de idade foi de 49,1 anos e 53,6% eram do sexo masculino. A carga viral do HIV era menor que 50 cópias/mL em 87% dos pacientes.
O estudo “Prevalence of, Evolution of, and Risk Factors for Fat Atrophy and Fat Deposition in a Cohort of HIV-Infected Men and Women”, publicado na revista Clinical Infectious Diseases em 2005, definiu a lipohipertrofia como uma relação cintura-quadril > 0,95 para homens e > 0,85 para mulheres.
Das 452 PVHA avaliadas, 44% apresentaram lipohipertrofia. O risco de desenvolvê-la foi maior entre as mulheres (p < 0,001) e entre os participantes com maiores níveis de gordura corporal (p = 0,005) e maiores níveis de triglicerídeos (p < 0,001).
O diagnóstico da lipohipertrofia associada ao HIV é primariamente clínico, baseado nos achados do exame físico de acúmulo de gordura no tronco. O autorrelato da PVHA sobre as mudanças na gordura corporal se correlaciona bem com medidas objetivas. Porém, não existem critérios diagnósticos bem estabelecidos. Por isso, irei apresentar as definições utilizadas nos principais estudos sobre o tema.
O estudo “Prevalence of, Evolution of, and Risk Factors for Fat Atrophy and Fat Deposition in a Cohort of HIV-Infected Men and Women”, publicado na revista Clinical Infectious Diseases em 2005, definiu a lipohipertrofia como uma relação cintura-quadril maior que 0,95 para homens e maior que 0,85 para mulheres.
O estudo “Fat Mass Ratio in Brazilian HIV-infected Patients Under Antiretroviral Therapy and Its Relationship With Anthropometric Measurements”, publicado no Journal of Clinical Densitometry em 2020, definiu a lipohipertrofia através do exame de DEXA utilizando o cálculo da Razão de Massa Gorda (FMR – Fat Mass Ratio), que é a proporção entre a porcentagem de gordura do tronco e a porcentagem de gordura dos membros inferiores. Este estudo brasileiro encontrou pontos de corte de FMR de 1,55 para homens (sensibilidade de 62,5%, especificidade de 70,5%) e 0,959 para mulheres (sensibilidade de 83,6%, especificidade de 61,5%).
O estudo “Age- and sex-specific visceral fat reference cutoffs and their association with cardio-metabolic risk”, publicado no International Journal of Obesity, definiu como um maior preditor de risco cardiometabólico quando a massa de TAV no exame de DEXA era: maior que 700 g em mulheres com menos de 40 anos; 800 g em mulheres com 40 anos ou mais; 1000 g em homens com menos de 40 anos; e 1200 g em homens com 40 anos ou mais.
O último estudo, “Lipohypertrophy and metabolic disorders in HIV patients on antiretroviral therapy: a systematic multidisciplinary clinic approach”, apresentado no congresso HIV Drug Therapy, em Glasgow, em 2014, definiu a lipohipertrofia como um TAV maior que 130 cm², medido por meio de tomografia computadorizada.
A falta de um consenso sobre os critérios diagnósticos continua sendo um desafio na prática clínica atual.
A semaglutida, comercializada no Brasil como Ozempic® e Wegovy®, é um análogo do GLP-1 com 94% de homologia de sequência com o GLP-1 humano, que se liga seletivamente e ativa o receptor de GLP-1. Seus principais mecanismos incluem:
O artigo “Once-weekly semaglutide in people with HIV-associated lipohypertrophy: a randomised, double-blind, placebo-controlled phase 2b single-centre clinical trial”, publicado em julho de 2024 no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, investigou os efeitos da semaglutida no tratamento da lipohipertrofia associada ao HIV em PVHA.
Trata-se de um ensaio clínico de fase 2b, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Os participantes com lipohipertrofia associada ao HIV foram inscritos em um único centro (University Hospitals Cleveland Medical Center, Cleveland, OH, EUA) e aleatoriamente designados para receber 32 semanas de semaglutida subcutânea (uma vez por semana) ou placebo. Além disso, todos receberam orientações sobre dieta e exercício físico.
Os participantes elegíveis tinham 18 anos ou mais, infecção pelo HIV-1, estavam em terapia antirretroviral há mais de um ano e apresentavam carga viral abaixo de 400 cópias/mL por mais de seis meses. Além disso, precisavam relatar aumento da circunferência abdominal após o início do tratamento, apresentar circunferência da cintura e relação cintura-quadril superiores a 95 cm e 0,94, respectivamente, para homens, e superiores a 94 cm e 0,88, respectivamente, para mulheres, além de um IMC de 25 kg/m² ou mais. Histórico de diabetes tipo 1 ou tipo 2 foi critério de exclusão.
Após 32 semanas de tratamento, o grupo que utilizou a semaglutida apresentou os seguintes resultados (todos com significância estatística):
Não houve diferenças estatisticamente significativas em relação aos eventos adversos em geral. No entanto, foram observados um aumento de lipase de grau 4 relacionado à semaglutida e dois casos de colelitíase (graus 1 e 2) possivelmente relacionados à medicação.
Os autores concluíram que este é o primeiro ensaio clínico randomizado a investigar o uso de semaglutida em PVHA que apresentam lipohipertrofia associada ao vírus. O estudo demonstrou efeitos benéficos na redução da gordura corporal total, especialmente do tecido adiposo visceral, após as 32 semanas de intervenção. A semaglutida também demonstrou um perfil de segurança positivo, embora alguns efeitos colaterais exijam maior investigação.
A tesamorelina é um análogo sintético do hormônio liberador do hormônio do crescimento (GHRH) aprovado pela FDA para o tratamento da lipohipertrofia associada ao HIV em PVHA. Ela é comercializada como Egrifta SV® e representa o único tratamento aprovado para essa condição.
A tesamorelina estimula a síntese e a liberação do hormônio do crescimento endógeno, o que reduz seletivamente o TAV sem afetar significativamente a gordura subcutânea.
O artigo “Metabolic Effects of a Growth Hormone–Releasing Factor in Patients with HIV”, publicado na revista New England Journal of Medicine em dezembro de 2007, foi um estudo com 412 PVHA (sendo 86% do sexo masculino) que apresentavam lipohipertrofia associada ao HIV. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos durante um período de 26 semanas. Enquanto o primeiro grupo recebeu injeções subcutâneas diárias de 2 mg de tesamorelina, o segundo grupo recebeu placebo.
O desfecho primário foi a alteração percentual, em relação ao valor basal, do TAV, conforme demonstrado por tomografia computadorizada. Os desfechos secundários incluíram os níveis de triglicerídeos, a relação entre o colesterol total e o HDL, o nível do fator de crescimento semelhante à insulina tipo I (IGF-I) e a autoavaliação da imagem corporal. As medidas glicêmicas incluíram os níveis de glicose e insulina.
Após 26 semanas, a medida do TAV diminuiu 15,2% no grupo da tesamorelina e aumentou 5,0% no grupo placebo; os níveis de triglicerídeos diminuíram 50 mg/dL e aumentaram 9 mg/dL, respectivamente, e a relação entre o colesterol total e o colesterol HDL diminuiu 0,31 e aumentou 0,21, respectivamente (P<0,001 para todas as comparações). Os níveis de colesterol total e colesterol HDL também melhoraram significativamente no grupo da tesamorelina. Os níveis de IGF-I aumentaram 81,0% no grupo da tesamorelina e diminuíram 5,0% no grupo placebo (P<0,001). Os eventos adversos não diferiram significativamente entre os dois grupos de estudo, mas mais PVHA do grupo da tesamorelina abandonaram o estudo devido a algum evento adverso. Não foram observadas diferenças significativas nas medidas glicêmicas.
Os autores concluíram que o uso diário de tesamorelina por 26 semanas diminuiu o TAV e melhorou os perfis lipídicos, efeitos que podem ser úteis em PVHA com lipohipertrofia associada ao HIV.
O artigo “Effects of Tesamorelin, a Growth Hormone–Releasing Factor, in HIV-Infected Patients With Abdominal Fat Accumulation: A Randomized Placebo-Controlled Trial With a Safety Extension”, publicado no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes em março de 2010, foi um estudo de 12 meses conduzido entre janeiro de 2007 e outubro de 2008 com 404 PVHA com lipohipertrofia associada ao HIV.
O estudo consistiu em 2 fases sequenciais. Na fase primária de eficácia (meses 0 a 6), as PVHA foram distribuídas aleatoriamente para receber tesamorelina (2 mg via subcutânea todos os dias) ou placebo em uma proporção de 2:1. Na fase de extensão (meses 6 a 12), as PVHA que recebiam tesamorelina foram submetidas a um novo sorteio para continuar com a medicação (2 mg via subcutânea todos os dias) ou mudar para o placebo. As PVHA sorteadas inicialmente para o placebo mudaram para a tesamorelina. Os participantes e pesquisadores permaneceram sem saber quem recebia qual tratamento durante todo o estudo. O desfecho primário avaliado foi o TAV. Os desfechos secundários incluíram imagem corporal, IGF-I, medidas de segurança (incluindo glicose) e outras medidas de composição corporal.
Após os 6 primeiros meses da fase de eficácia, o TAV diminuiu 10,9% (-21 cm²) no grupo da tesamorelina versus 0,6% (-1 cm²) no grupo placebo (P < 0,0001). A gordura do tronco (P < 0,001), a circunferência da cintura (P = 0,02) e a relação cintura-quadril (P = 0,001) melhoraram, sem alteração na gordura subcutânea dos membros ou do abdômen. O IGF-I aumentou (P < 0,001), mas não foi observada nenhuma alteração nos parâmetros de glicose. A avaliação dos pacientes em relação à aparência do abdome (P = 0,02) e a avaliação dos médicos sobre o perfil do abdome (P = 0,02) melhoraram significativamente nos grupos tratados com tesamorelina em comparação com o placebo. O medicamento foi bem tolerado.
O TAV foi reduzido em aproximadamente 18% (P < 0,001) nas PVHA que continuaram a tesamorelina por 12 meses. As melhorias iniciais no TAV alcançadas ao longo dos 6 meses foram perdidas rapidamente naqueles que mudaram da tesamorelina para o placebo.
Os autores concluíram que a tesamorelina reduz o TAV em aproximadamente 18% e melhora o sofrimento com a imagem corporal em PVHA com lipohipertrofia associada ao HIV. Essas alterações são alcançadas sem efeitos colaterais significativos ou perturbação dos níveis de glicose. Porém, a redução da gordura não se manteve em longo prazo após a interrupção da medicação.
O artigo “Efficacy and safety of tesamorelin in people with HIV on integrase inhibitors”, publicado na revista AIDS em junho de 2024, foi um ensaio clínico randomizado e duplo-cego com 61 PVHA com lipohipertrofia associada ao HIV e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD). O objetivo foi avaliar a eficácia e a segurança da tesamorelina (2 mg uma vez ao dia) em comparação com um placebo, entre participantes que utilizavam a terapia antirretroviral com inibidores da integrase, como o dolutegravir, no início do estudo.
Neste estudo, a área de secção transversal da gordura visceral, a fração de gordura hepática e a relação entre a gordura do tronco e a gordura apendicular (dos membros) foram quantificadas utilizando ressonância magnética, espectroscopia de ressonância magnética de prótons e absorciometria de raios-X de dupla energia (DEXA), respectivamente, no início do estudo e aos 12 meses.
Entre os 38 participantes em terapia antirretroviral com inibidores da integrase no início do estudo, 15 PVHA no grupo da tesamorelina e 16 no grupo placebo completaram o estudo de 12 meses. A tesamorelina levou a reduções significativas na gordura visceral (mediana de -25 [-93, -2] vs. 14 [3, 41] cm², P = 0,001), na gordura hepática (-4,2% [-12,3%, -2,7%] vs. -0,5% [-3,9%, 2,7%], P = 0,01) e na relação de gordura do tronco/apendicular (-0,1 [-0,3, 0,0] vs. 0,0 [-0,1, 0,1], P = 0,03). Ela foi bem tolerada, apresentando uma frequência semelhante de eventos adversos, incluindo hiperglicemia, entre os grupos.
Os autores concluíram que este estudo fornece os primeiros dados sobre a eficácia e a segurança da tesamorelina entre PVHA em tratamento com inibidores da integrase. Apesar da associação desta classe de antirretrovirais com o ganho de peso e a disfunção do tecido adiposo, a tesamorelina apresentou efeitos benéficos na composição corporal sem causar piora no controle glicêmico.
Segundo a bula do Egrifta SV®, a dose recomendada é de 1,4 mg (0,35 mL da solução reconstituída) por via subcutânea, uma vez ao dia, no abdômen, alternando os locais de injeção. A medicação é geralmente bem tolerada, com a maioria dos eventos adversos sendo reações no local da injeção ou efeitos relacionados ao hormônio do crescimento (artralgia, dor de cabeça, edema periférico).
É importante ressaltar que o medicamento possui um efeito neutro sobre o peso e não é indicado para o tratamento da obesidade. Porém, a segurança cardiovascular em longo prazo não foi estabelecida, e o tratamento deve ser reconsiderado em PVHA que não alcançam a redução do tecido adiposo visceral.
A tesamorelina não está disponível para venda no Brasil; por isso, atualmente não é uma opção para o tratamento da lipohipertrofia associada ao HIV e da MASLD em PVHA que moram no nosso país.
Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.
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