Por Dr. Richard Portier
em 10 de abril de 2026.
No segundo capítulo do livro “Fundamentals of HIV Medicine 2025 Edition”, os autores abordam a origem, a evolução e a epidemiologia global da infecção pelo vírus HIV.
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é um retrovírus membro da família Lentivirus, caracterizado por uma enorme diversidade e rápida mutação. O vírus da imunodeficiência símia (SIV) é o precursor do HIV, tendo sido transmitido aos humanos por meio de uma zoonose.
Ainda não se sabe o momento exato da primeira transmissão do SIV para humanos, mas ela possivelmente ocorreu durante a caça, o abate e o consumo de carne de chimpanzés infectados. O SIV, assim como o HIV, transmite-se por via sexual e perinatal em primatas não humanos (PNH), destruindo os linfócitos CD4.
As primeiras infecções por HIV-1 surgiram em Kinshasa (antes chamada de Leopoldville), na República Democrática do Congo, por volta de 1920. A partir dessa região, o vírus se espalhou silenciosamente para o leste durante 50 anos (ver figura). O sequenciamento de uma amostra de soro de 1959 (do grupo M) constitui a evidência mais antiga da infecção pelo HIV-1. Posteriormente, Worobey e colaboradores identificaram o HIV-1 em uma amostra de nódulo linfático obtida em 1960 de uma mulher também em Kinshasa.
Imagem retirada do livro “Fundamentals of HIV Medicine 2025 Edition”.
A disseminação global do vírus ocorreu da África para o Haiti entre 1960 e 1966. No início da década de 1960, o Congo empregou 4.500 trabalhadores haitianos, que se tornaram a fonte presumida da infecção em seu país de origem. Estudos com cinco haitianos infectados confirmaram a presença do HIV-1 no Haiti antes de 1966, pelo menos três anos antes de sua propagação para os Estados Unidos e outros países. Análises filogenéticas recentes indicam que o vírus chegou aos Estados Unidos (em Nova York) por volta de 1970.
Imagem retirada do livro “Fundamentals of HIV Medicine 2025 Edition”.
O HIV-1 apresenta rápida evolução, resultando em significativa diversidade genética. Ele possui quatro linhagens distintas: os grupos M, N, O e P, que compartilham entre 50% e 60% do seu material genético.
O grupo M (Major ou Main = Principal) é o responsável pela pandemia. Distribui-se globalmente e causa de 90% a 95% das infecções. Subdivide-se em 9 subtipos principais (A, B, C, D, F, G, H, J e K) e sub-subtipos adicionais (como A1 a A4, F1 e F2). Esses subtipos compartilham mais de 80% do seu material genético, embora possam diferir em até 20% dependendo da região geográfica:
Sobre os demais grupos do HIV-1:
Em 1986, pesquisadores descobriram na África Ocidental um vírus similar em morfologia, mas distinto em antígenos do HIV-1, denominando-o HIV-2. Ele compartilha 60% de identidade com o HIV-1 em nível de aminoácidos e 48% em nível nucleotídico. Assim como o HIV-1, possui múltiplos grupos (A até H), dos quais somente o A e o B se disseminaram significativamente.
O HIV-2 apresenta menor transmissibilidade e competitividade em comparação ao HIV-1. Sua identificação ocorreu primeiramente na África Ocidental (Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Gâmbia, Mali, Nigéria, Senegal e Serra Leoa). A migração populacional disseminou o vírus para outras partes da África, Índia, Europa (principalmente Portugal) e Estados Unidos.
Dados recentes sugerem que a prevalência do HIV-2 pode estar em declínio na África Ocidental, algo também observado em estudos espanhóis. A baixa transmissibilidade do vírus, a queda na taxa de novas infecções e a competição com o HIV-1 ajudam a explicar esse cenário. Globalmente, estima-se que 1 a 2 milhões de pessoas vivam com HIV-2, embora o número possa estar subestimado. Nos EUA, o CDC registrou cerca de 200 diagnósticos em 2017.
Desde o início da epidemia, a OMS estima que 85,6 milhões (64,8 a 113 milhões) de pessoas contraíram o HIV e 40,4 milhões (32,9 a 51,3 milhões) faleceram por doenças relacionadas à AIDS.
No final de 2022, aproximadamente 39 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo. Naquele ano, 1,3 milhão de pessoas contraíram a infecção (uma redução de 1,5 milhão nas novas infecções se comparado a picos anteriores). Aproximadamente 0,7% dos adultos entre 15 e 49 anos globalmente vivem com o vírus, sendo a África Oriental e Austral a região mais afetada, concentrando mais da metade dos casos mundiais.
O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) identifica seis populações-chave com risco elevado: adolescentes e jovens, homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas injetáveis e pessoas privadas de liberdade. Em 2022, o risco de adquirir o HIV em comparação com a população adulta geral foi:
As vulnerabilidades variam por região. Na África Austral, adolescentes e mulheres jovens apresentam risco extremamente alto. Na Europa Oriental e Ásia Central, o maior risco concentra-se em usuários de drogas injetáveis; já na América Latina, Caribe, Europa Ocidental e América do Norte, o impacto é maior entre HSH.
Historicamente, o UNAIDS estabeleceu as metas 90-90-90 (posteriormente atualizadas para 95-95-95 para o ano de 2025): garantir que a grande maioria das pessoas conheça seu diagnóstico, receba tratamento antirretroviral (TARV) e atinja a supressão viral.
Em 2022, observou-se um progresso considerável entre as pessoas vivendo com HIV:
Houve avanços expressivos a longo prazo. As mortes relacionadas à AIDS diminuíram 68% desde o pico em 2004. A partir de 2010, a mortalidade caiu 57% entre mulheres e meninas, e 47% entre homens e meninos. Destaca-se também que, em 2021, havia cerca de 20,9 milhões de pessoas a mais recebendo tratamento em comparação aos dados de 2010.
Ainda assim, os desafios permanecem: em 2022, 9,2 milhões de pessoas estavam sem tratamento e outras 2,1 milhões, mesmo sob acompanhamento, apresentavam carga viral detectável — uma situação mais crítica na Europa Oriental, Ásia Central e nas regiões do Oriente Médio e Norte da África.
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