Por Dr. Richard Portier
em 10 de abril de 2026.
No terceiro capítulo do livro “Fundamentals of HIV Medicine 2025 Edition”, os autores abordam o ciclo de multiplicação do HIV.
No HIV maduro, o capsídeo viral contém duas moléculas de RNA de fita simples e as enzimas necessárias à infecção: transcriptase reversa, integrase e protease, além das proteínas acessórias. O capsídeo é envolvido por uma proteína estrutural denominada matriz (p17). Esta é envolvida pelo envelope viral, composto por uma bicamada fosfolipídica derivada da membrana da célula hospedeira, que contém as glicoproteínas virais gp120 e gp41. As glicoproteínas gp120 possuem um alto nível de variabilidade, o que permite ao vírus escapar de anticorpos neutralizantes produzidos pelo sistema imunológico.
Imagem retirada do protocolo “Diagnóstico do HIV”do Ministério da saúde, 2014.
O envelope viral contém as proteínas para a fusão celular, iniciando a infecção do linfócito T CD4+. A gp120 se liga com alta afinidade ao receptor CD4. Esta ligação induz uma mudança conformacional, expondo seus sítios de ligação para os correceptores CCR5 ou CXCR4 na superfície celular. A ligação ao correceptor permite que a gp41 insira seu peptídeo hidrofóbico na membrana, formando um poro por onde o capsídeo entra. A gp41 é o alvo dos antirretrovirais (ARV) inibidores de fusão.
O uso dos coreceptores varia de acordo com a cepa viral. Cepas que usam CCR5 ou CXCR4 são classificadas como R5-trópicas ou X4-trópicas, respectivamente. Pessoas com a mutação genética CCR5Δ32 não expressam esse correceptor e são altamente resistentes ao HIV R5-trópico. Antirretrovirais antagonistas de CCR5 só funcionam para cepas R5-trópicas. Houve raros casos de remissão (cura funcional) após transplante de medula de doadores homozigotos CCR5Δ32.
Após a fusão, ocorre o desencapsidamento. A enzima transcriptase reversa transforma o RNA viral em DNA viral. O sistema imune inato tenta bloquear essa etapa produzindo a enzima APOBEC3G, mas a proteína viral Vif a neutraliza e a degrada. O DNA viral recém-sintetizado é então transportado ao núcleo e integrado ao DNA da célula pela enzima integrase. Neste estágio, ele passa a ser chamado de provírus.
Uma vez integrado, o provírus pode permanecer latente ou sofrer expressão ativa. Na expressão ativa, o DNA viral é transcrito em mRNA, que é processado e traduzido em proteínas virais progenitoras. Em um ciclo de feedback positivo, a proteína regulatória Tat promove ainda mais a transcrição viral. A proteína estrutural Gag promove a montagem dessas proteínas progenitoras para formar novos vírions.
A montagem ocorre na membrana celular, e as partículas deixam a célula por brotamento, incorporando partes da membrana celular ricas em colesterol e esfingolipídios. Durante ou logo após o brotamento, a enzima protease atua amadurecendo o vírion, tornando-o infeccioso. O tempo de geração do HIV-1 in vivo é de 2,5 dias, e a meia-vida dos linfócitos T CD4+ infectados é de apenas 0,7 dias.
Na transmissão sexual, o HIV atravessa a barreira epitelial por rupturas físicas causadas por trauma ou outras infecções sexualmente transmissíveis. O vírus também pode atravessar mucosas intactas via células dendríticas (especialmente as células de Langerhans) ou por transcitose no trato gastrointestinal.
Ao cruzar a barreira epitelial, o vírus encontra múltiplas células-alvo. A infecção inicial é frequentemente propagada pelas células dendríticas, que entregam o HIV aos linfócitos T CD4+. Alternativamente, os vírions podem infectar diretamente células CD4+ locais e células derivadas de monócitos.
Imagem adaptada de The immune response to HIV. Nina Bhardwaj, Florian Hladik and Susan Moir. 2012.
A fase eclipse é o período em que o vírus permanece indetectável no sangue (aproximadamente 10 dias). Uma vez estabelecido no ponto de entrada, ele se expande rapidamente para os linfonodos regionais e, através da corrente sanguínea, dissemina-se pelo corpo. Através de uma reação em cadeia chamada “sinapse virológica”, células dendríticas infectadas aumentam o recrutamento de mais linfócitos suscetíveis, espalhando a infecção
Imagem adaptada de The immune response to HIV. Nina Bhardwaj, Florian Hladik and Susan Moir. 2012.
Com a viremia alta, a contagem de linfócitos T CD4+ no sangue cai drasticamente devido a:
Imagem adaptada de The immune response to HIV. Nina Bhardwaj, Florian Hladik and Susan Moir. 2012.
As células NK (Natural Killers) desempenham um papel importante na infecção aguda, estimulando a destruição de células infectadas e secretando citocinas para limitar a infecção.
A ativação crônica e a replicação causam fibrose na arquitetura linfoide, levando a uma recuperação incompleta da imunidade mesmo após o início do tratamento. É aqui que o reservatório de células latentemente infectadas é estabelecido (principalmente no intestino, tecidos linfoides periféricos, tecido adiposo e micróglia cerebral). Mesmo diagnosticado na fase aguda, o tratamento imediato pode atenuar, mas não reverter totalmente, esses reservatórios, que são a principal barreira para a cura. Como esses provírus inativos não replicam, não utilizam as enzimas que os medicamentos antirretrovirais atacam.
Ao iniciar a terapia antirretroviral (TARV), a queda da carga viral ocorre em quatro fases distintas e contínuas. A primeira fase concentra-se nos 10 dias iniciais, apresentando uma queda rápida decorrente do bloqueio da replicação e da morte dos linfócitos T CD4+ infectados, que possuem uma meia-vida curta de apenas 1 a 2 dias. A segunda fase estende-se de semanas a meses e é marcada por um declínio mais lento, correspondendo à eliminação de macrófagos infectados e linfócitos de vida mais longa.
Na terceira fase, que pode durar de meses a anos, a carga viral continua a declinar de maneira muito lenta, o que provavelmente representa a morte natural e gradual de linfócitos latentemente infectados. Por fim, a quarta e última fase é de estabilização. Ela ocorre entre 4 e 5 anos após o início da terapia e reflete o equilíbrio entre a ativação (ou produção residual) do vírus e a sua eliminação constante pelo organismo e pelos medicamentos.
Apesar da carga viral indetectável no sangue, a proporção de linfócitos T CD4+ de longa vida que abrigam o provírus inativo declina de forma extremamente lenta, com uma meia-vida estimada de 44 meses. Por essa estimativa matemática, a erradicação total do HIV exigiria mais de 70 anos de terapia ininterrupta. Se a medicação for suspensa, essas células atuam como um reservatório a partir do qual o vírus pode reativar
Durante a infecção não tratada, o HIV se replica a uma taxa extraordinária: cerca de 10 bilhões de novas partículas virais por dia. Como a enzima transcriptase reversa carece de um mecanismo de revisão de erros, ocorrem mutações constantes no genoma, alterando proteínas e funções virais. Outro mecanismo de diversidade é a recombinação viral, que ocorre quando uma célula é coinfectada com duas cepas diferentes do vírus, misturando seus materiais genéticos.
Imagem adaptada de The immune response to HIV. Nina Bhardwaj, Florian Hladik and Susan Moir. 2012.
A diversidade genética observada em um único indivíduo após cinco anos de infecção sem tratamento é aproximadamente equivalente à observada no vírus Influenza A em todo o mundo durante um ano. É essa impressionante capacidade de mutação e diversificação (que, curiosamente, é muito maior durante a infecção aguda do que na crônica) que tem impedido a descoberta de uma vacina altamente eficaz contra o HIV até os dias de hoje.
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