ARTIGOS

Como acabar com a epidemia do HIV?

Por Dr. Richard Portier

em 10 de abril de 2026.

Esta é uma pergunta cuja resposta está em desenvolvimento desde a década de 1980.

No Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral à infecção pelo HIV, publicado pelo Ministério da Saúde em 2025, os autores citam a “prevenção combinada”. Este termo remete à conjugação de diferentes ações de prevenção ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Como o próprio nome sugere, a prevenção combinada envolve o uso integrado de métodos preventivos, de acordo com as possibilidades e escolhas de cada indivíduo, sem excluir ou sobrepor um método ao outro.

Ao longo deste artigo, utilizarei como base o primeiro capítulo do livro Fundamentals of HIV Medicine 2025 Edition. Neste capítulo, os autores abordam as quatro estratégias para o fim da epidemia do HIV nos EUA. Apesar das realidades distintas, no Brasil agimos de forma semelhante.

Ending the HIV Epidemic

O governo dos EUA possui uma iniciativa chamada Ending the HIV Epidemic (EHE) — Acabando com a Epidemia de HIV. Este é um plano de 10 anos que visa reduzir o número de novas infecções em 75% até 2025 e em 90% até 2030, totalizando 250.000 infecções evitadas nesse período. Isso se traduz na redução da incidência de infecções por HIV para menos de 3.000 anualmente. Em 2018, a incidência estimada de infecções por HIV nos Estados Unidos foi de 34.800 (CDC, 2021).

A EHE está alinhada com as metas “90-90-90” para acabar com a pandemia global de HIV/AIDS, estabelecidas pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) e publicadas em 2014. Uma modelagem do UNAIDS previu que, se 90% das pessoas vivendo com HIV (PVHA) fossem diagnosticadas; destas, 90% recebessem tratamento; e, destas, 90% mantivessem a carga viral indetectável até 2020, o fim da pandemia de AIDS poderia ser alcançado até 2030 (UNAIDS, 2014). Infelizmente, a meta “90-90-90” ainda não foi alcançada em várias partes do mundo.

Mas como alcançar essa meta? Por meio de quatro estratégias: diagnóstico, tratamento, prevenção e resposta rápida.

Diagnóstico

Os autores começam pelo diagnóstico. De acordo com os relatórios de vigilância do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, órgão governamental semelhante ao Ministério da Saúde no Brasil), estimava-se a existência de 1,2 milhão de PVHA nos Estados Unidos em 2019. Destas, 13,3% estavam sem diagnóstico (CDC, 2021). Expandir os testes de HIV para diagnosticar esses indivíduos é vital, não só para o benefício individual, mas também para interromper a transmissão do vírus. O teste é recomendado para pessoas sexualmente ativas ao menos uma vez ao ano.

Tratamento

Para os autores, o segundo pilar é o tratamento. A supressão viral (considerada como carga viral para o HIV abaixo de 50 cópias por mL) é uma intervenção poderosa que reduz a transmissão do vírus. Resultados dos estudos HPTN 052, PARTNER 1, PARTNER 2 e Opposites Attract demonstraram que PVHA com carga viral indetectável consistentemente não transmitem o vírus HIV para seus parceiros por via sexual vaginal ou anal (Rodger et al., 2016; Cohen et al., 2011; Cohen et al., 2016; Røder et al., 2019).

Esses resultados tornam o tratamento fundamental para a prevenção. No entanto, em 2019, apenas 60% das PVHA diagnosticadas estavam com a carga viral indetectável, o que representava apenas 37% do total estimado de PVHA (CDC, 2019). Esses dados ressaltam a importância de melhorar a assistência à saúde para garantir que 95% das pessoas alcancem a supressão viral até 2030 (CDC, 2024).

Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Troca de Seringas (SSPs)

O terceiro pilar visa prevenir a transmissão do HIV utilizando programas de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e troca de seringas (SSPs). A PrEP, em suas diversas formulações, reduz significativamente a taxa de aquisição do HIV. Em 2020, 1.216.210 pessoas nos Estados Unidos tinham indicação para o uso da PrEP. No entanto, apenas 301.033 receberam a profilaxia, o que representa menos de um quarto dos candidatos elegíveis. Esse número melhorou para 36% em 2023 (CDC, 2023).

Uma apresentação na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI) em 2024 mostrou que as pessoas no quintil mais alto de elegibilidade para a PrEP apresentaram grandes quedas na transmissão do HIV, atingindo o menor nível histórico de novas infecções em alguns estados dos EUA (Sullivan et al., 2024).

Programas de troca de seringas (SSPs) oferecem recursos para pessoas que fazem uso de drogas injetáveis, incluindo acesso a materiais para uso seguro, tratamento e programas de prevenção de doenças infecciosas, focando na conexão com a assistência médica. Uma metanálise de estudos conduzidos na América do Norte e na Europa (Aspinal et al., 2014) mostrou que os SSPs reduziram a incidência do HIV em 58% nessa população.

Resposta Rápida

Por fim, o último pilar citado pelos autores é a resposta rápida a novos surtos por meio da colaboração entre o CDC e os departamentos locais de saúde. O objetivo final é oferecer intervenções diagnósticas, terapêuticas e profiláticas apropriadas, com recursos extras.

O CDC observou que houve uma redução de 16% nas novas infecções por HIV em pessoas de 18 a 24 anos entre 2018 e 2022. Outro avanço importante foi a queda de 16% no número de novas infecções no Meio-Oeste e no Sudeste dos Estados Unidos, regiões com maior incidência de HIV. No entanto, ainda houve um aumento no número de novas infecções entre as populações hispânicas/latinas e negras.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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