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Vida saudável: como melhorar a alimentação e a prática de exercícios físicos

Por Dr. Richard Portier

em 16 de março de 2026.

Alguns estudos demonstram que parte das pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA) negligencia os cuidados com a nutrição e a educação física após o diagnóstico. Esses foram os resultados do estudo “Diet in a global cohort of adults with HIV at low-to-moderate traditional cardiovascular disease risk”, publicado na revista AIDS em novembro de 2022.

Os participantes desse estudo fizeram parte do REPRIEVE, um estudo randomizado, multicêntrico e de fase III de pitavastatina cálcica versus placebo. O REPRIEVE inscreveu 7.770 participantes entre março de 2015 e julho de 2019, em mais de 100 locais em todo o mundo.

Todos os participantes eram PVHA, sem doença cardiovascular aterosclerótica conhecida, com 40 a 75 anos de idade, em terapia antirretroviral e com risco cardiovascular baixo a moderado.

No início do estudo, as informações sobre alimentação foram coletadas utilizando o REAP, um questionário de 31 itens desenvolvido para avaliar a qualidade da dieta em ambientes de atenção primária. Um escore de qualidade foi calculado com base nas respostas dos participantes a 15 perguntas. Pontuações mais altas refletiam melhor qualidade da dieta e dos hábitos alimentares. Para avaliar ainda mais os componentes da alimentação (gordura saturada, sódio, fibra e açúcar adicionado), escores específicos foram desenvolvidos com base em agrupamentos de perguntas. O escore de qualidade foi analisado em uma escala contínua com pontuação máxima de 30 e agrupado em uma escala ordinal com quatro categorias: ótima, boa, subótima ou ruim.

Entre todos os participantes, a pontuação mediana da qualidade da dieta foi de 17 pontos. Quando os escores foram agrupados por categoria, 13% dos participantes tiveram uma dieta ótima, 45% boa, 38% subótima e 4% ruim.

Em relação aos componentes da dieta:

  • 47% tiveram pontuações de gordura saturada abaixo do ideal ou ruins;
  • 66% tiveram pontuações de fibras abaixo do ideal ou ruins;
  • 36% tiveram pontuações de sódio abaixo do ideal ou ruins;
  • 41% tiveram pontuações de açúcar adicionado abaixo do ideal ou ruins.

Apesar de todas as informações sobre nutrição disponíveis na internet e do número cada vez maior de profissionais de nutrição no mercado de trabalho, 43% das PVHA ainda possuem uma alimentação abaixo do ideal ou ruim. Quando avaliamos os componentes da dieta isoladamente, aproximadamente 40% foram categorizados como abaixo do ideal ou ruins.

Esse padrão de alimentação está relacionado ao alto percentual de gordura, à pouca massa muscular e a diversas comorbidades, cada vez mais diagnosticadas nas PVHA. Continue lendo este artigo, pois ensinarei como manter uma alimentação simples e de alta qualidade, e como você deve praticar exercícios físicos.

Coma comida de verdade

Uma boa dieta consiste em um equilíbrio dos seguintes tipos de alimentos: (1) vegetais; (2) peixe, ovos, carne e frango; (3) frutas; (4) gorduras boas, como castanhas, sementes, azeite de oliva, abacate, farinha de linhaça; (5) laticínios; (6) leguminosas, como feijão e lentilhas; e (7) carboidratos, como arroz, batata, batata-doce, mandioca, mandioquinha, inhame, macarrão, pão, cuscuz e tapioca.

  • Vegetais: sua alimentação deve ser rica neles. Eles são as principais fontes de vitaminas, minerais, fitoquímicos, fibras e polifenóis. Neles se encontra a maioria dos nutrientes importantes que combatem radicais livres e fatores inflamatórios, além de ajudarem na saciedade. Coma sem moderação.
  • Proteínas: ovos, carne e frango fornecem proteínas, minerais e vitaminas (principalmente ferro e B12). Opções não animais incluem quinoa, soja, tofu, cogumelos, suplementos vegetais e leguminosas (feijões, lentilhas e ervilhas). Sempre coma peixe (salmão, arenque, atum, sardinha, truta, cavala) duas vezes por semana, pois contêm ômega-3, que possui propriedades anti-inflamatórias e previne problemas cardíacos. Para calcular sua necessidade diária de proteínas, multiplique seu peso em quilos por 1,6.
  • Gorduras boas: fornecem energia, ácidos graxos essenciais (como ômega-3) e vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), além de ajudarem na saciedade. Porém, cuidado com a quantidade, pois são calóricas.
  • Frutas no lugar de doces: na natureza, os açúcares estão quase sempre embalados em fibras, o que gera maior saciedade. Por isso, troque os doces por frutas: você ficará mais satisfeito. Elas são excelentes antioxidantes e anti-inflamatórias, além de fontes de nutrientes essenciais como potássio, vitamina C e ácido fólico.
  • Laticínios: leite, queijo e iogurte fornecem vitaminas, minerais e, principalmente, cálcio. Porém, atenção à quantidade de gorduras saturadas. Escolha laticínios integrais e sem açúcar — são mais naturais e menos processados que as versões desnatadas, light ou diet. Vegetais verde-escuros (couve, brócolis), frutas secas, nozes, feijões e tofu também são ótimas fontes de cálcio e ferro.
  • Carboidratos: arroz, aveia, batata, batata-doce, mandioca, mandioquinha, inhame, abóbora, macarrão, pão, cuscuz e tapioca. Eles serão a base da sua alimentação e fornecerão a energia necessária para os treinos e atividades diárias.
  • O que evitar: alimentos e bebidas com alto teor de açúcar adicionado e óleo vegetal devem ser abandonados. Eles contêm apenas calorias vazias e não fornecem nutrientes. A maioria desses produtos leva ao ganho de peso e à obesidade e, consequentemente, a doenças cardíacas, diabetes e câncer.
  • Hidratação: beba de 6 a 8 copos de líquidos por dia, principalmente água, chás e café (sem açúcar). Abandone sucos (mesmo os naturais) e bebidas adoçadas.

Por que praticar exercícios físicos?

O protocolo “Recomendações para a prática de atividades físicas para pessoas vivendo com HIV e AIDS” do Ministério da Saúde, publicado em 2012, nos dá alguns motivos.

Os principais benefícios evidenciados para as PVHA são:

  • Não há diminuição na contagem de linfócitos CD4 quando a prática é bem orientada, prescrita e acompanhada.
  • Melhora na composição corporal (para PVHA em terapia antirretroviral), com diminuição da gordura da região central e da massa gorda total, além do aumento da massa magra (muscular).
  • Melhora na aptidão cardiorrespiratória, aumentando o VO2 máximo.
  • Melhora na força e na resistência muscular.
  • Diminuição da ansiedade e da depressão.
  • Estímulo à aquisição de hábitos de vida saudáveis.

Atividade Física vs. Exercício Físico

Os termos são comumente utilizados como sinônimos, mas devem ser conceituados distintamente:

Atividade física é qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que resulta em gasto de energia acima dos níveis de repouso. Exemplos incluem atividades ocupacionais/laborais, de lazer, domésticas (limpeza pesada, jardinagem) e de deslocamento (caminhada, bicicleta).

De acordo com o nível de atividade, a PVHA pode ser classificada como:

  • Ativa: Pratica atividade física moderada por pelo menos 30 minutos, 5 vezes por semana; ou atividade vigorosa por pelo menos 20 minutos, 3 vezes por semana.
  • Insuficientemente ativa: Pratica atividade física por pelo menos 10 minutos por semana, mas não atinge as recomendações ideais.
  • Inativa: Pratica atividade física moderada ou vigorosa por menos de 10 minutos contínuos por semana.

Imagem adaptada do Physical Activity Guidelines for Americans, 2ª Edição.

A intensidade da atividade (leve, moderada ou vigorosa) baseia-se em equivalentes da taxa metabólica de gasto energético, expressos pela sigla MET (Metabolic Equivalents). O valor de 1 MET é o gasto de um adulto sentado em repouso.

  • Leves: 1 a 2,9 MET.
  • Moderadas: 3,0 a 5,9 MET.
  • Vigorosas: Igual ou superior a 6 MET.

O exercício físico, por sua vez, é definido como todo movimento corporal planejado, estruturado e repetido. É o mais recomendado para melhorar a aptidão física relacionada à saúde. A prescrição de um programa de treinamento físico deve ser feita por um profissional de Educação Física regularmente registrado nos Conselhos Regionais (Lei Federal nº 9.696/1998) ou por um profissional capacitado.

Atividades esportivas recomendadas de acordo com o estágio da infecção

O artigo de revisão “Exercise therapy for human immunodeficiency virus/AIDS patients: Guidelines for clinical exercise therapists”, publicado no Journal of Exercise Science & Fitness em junho de 2015, serve como guia.

Antes da prescrição, é necessário verificar o estágio da infecção segundo o Centers for Disease Control and Prevention(CDC) dos Estados Unidos. A classificação divide as PVHA em três categorias (A, B e C), subdivididas. Pacientes nas categorias A3, B3, C1, C2 e C3 são considerados no estágio Aids.

Categoria A (Assintomáticos, infecção aguda ou linfadenopatia generalizada persistente):

  • A1: CD4 maior ou igual a 500 células/mm³.
  • A2: CD4 entre 200 e 499 células/mm³.
  • A3: CD4 menor que 200 células/mm³.

Categoria B (Sintomáticos não incluídos nas categorias A e C):

  • B1: CD4 maior ou igual 500 células/mm³.
  • B2: CD4 entre 200 e 499 células/mm³.
  • B3: CD4 menor que 200 células/mm³.

Categoria C (Doença oportunista indicadora de Aids):

  • C1: CD4 maior ou igual 500 células/mm³.
  • C2: CD4 entre 200 e 499 células/mm³.
  • C3: CD4 menor que 200 células/mm³.

Após a classificação, define-se o treino:

Categoria A:

  • Frequência: 5 treinos aeróbicos e 3 treinos resistidos progressivos por semana.
  • Intensidade: Aeróbicos a 80 a 91% da frequência cardíaca máxima ou percepção de esforço moderada/difícil.
  • Tempo: 30 a 90 minutos por treino (200 a 300 minutos/semana).
  • Modalidade: Aeróbica (corrida, ciclismo, natação) e musculação.

Categoria B:

  • Frequência: 3 a 5 treinos aeróbicos e 2 a 3 treinos resistidos progressivos por semana.
  • Intensidade: Aeróbicos a 74 a 84% da frequência cardíaca máxima ou percepção de esforço moderada.
  • Tempo: 30 a 90 minutos por treino (200 a 300 minutos/semana).
  • Modalidade: Aeróbica e musculação.

Categoria C:

  • Frequência: 3 treinos aeróbicos e 2 treinos resistidos progressivos por semana.
  • Intensidade: Aeróbicos a 30 a 45% da frequência cardíaca máxima ou percepção de esforço leve/moderada.
  • Tempo: 20 a 30 minutos por treino (60 a 150 minutos/semana).
  • Modalidade: Aeróbica e musculação.

Contraindicações

O protocolo do Ministério da Saúde (2012) estabelece como contraindicação absoluta para a prática de exercícios físicos as PVHA com:

  • Imunodeficiência avançada na presença de infecção oportunista.
  • Presença de comorbidades que contraindiquem a prática (como hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus tipo 2 não controladas).
  • Hepatopatia grave com plaquetopenia (risco de sangramento).
  • Alto risco cardiovascular ou outras situações clínicas a serem analisadas pelo médico do paciente.

Abandone o hábito de fumar

O estudo “Factors Associated with Tobacco Smoking and Cessation among HIV-Infected Individuals under Care in Rio de Janeiro, Brazil”, publicado na PLOS ONE em dezembro de 2013, foi um estudo transversal realizado com PVHA em acompanhamento no IPEC/FIOCRUZ, que tiveram pelo menos uma consulta médica entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de julho de 2013. Foi aplicado um questionário com diversas perguntas sobre tabagismo e informações sociodemográficas, comportamentais, clínicas e terapêuticas.

Responderam ao questionário 2.775 (76,7%) pessoas em acompanhamento ativo; destas, 1.281 nunca fumaram (46,2%), 830 (29,9%) eram fumantes ativos e 664 (23,9%) eram ex-fumantes.

Os fumantes ativos apresentaram maior prevalência de uso de álcool e drogas ilícitas quando comparados aos outros dois grupos. Quando comparados aos ex-fumantes, os fumantes atuais tinham mais tempo de uso do tabaco e eram mais propensos a fumar mais de 10 cigarros por dia.

Os ex-fumantes foram diagnosticados com mais frequência com hipertensão (37,5%), diabetes tipo II (16,0%), doença cardiovascular (9,5%) e depressão (30,6%), enquanto os fumantes ativos apresentavam mais doença pulmonar obstrutiva crônica (9,6%), tuberculose (29,9%) e pneumonia (30,0%). Ex-fumantes e fumantes ativos apresentaram maior probabilidade de ter alguma internação hospitalar (42,0% e 41,2%, respectivamente) do que os participantes que nunca fumaram (33,5%). Por isso, todas as PVHA devem abandonar o hábito de fumar.

Tratamento do tabagismo

As Terapias de Reposição de Nicotina (TRNs) com adesivos, gomas, pastilhas, inalador de nicotina ou spray nasal dobram a taxa de sucesso de uma tentativa de parar. As TRNs atenuam os sintomas de abstinência e podem fornecer uma estratégia de adaptação para os aspectos comportamentais do vício: estímulo oral (goma, pastilha) e o movimento mão-boca (inalador).

O estudo “A randomized placebo-controlled clinical trial of five smoking cessation pharmacotherapies” demonstrou que a combinação de adesivo e pastilha de nicotina produziu o maior benefício em relação ao placebo. Eu prescrevo uma combinação do adesivo Nicotinell® com a goma Nicorette®.

A bupropiona e a vareniclina são ambas consideradas medicamentos de primeira linha para o abandono do hábito de fumar. Porém, a vareniclina é difícil de ser encontrada no Brasil; por isso, nossa opção é a bupropiona.

O artigo “Smoking and HIV: what are the risks and what harm reduction strategies do we have at our disposal?”, publicado na AIDS Research and Therapy em dezembro de 2018, sugere:

  • Os 5As: (i) perguntar sobre o hábito de fumar; (ii) avaliar a prontidão para parar e a dependência da nicotina; (iii) aconselhar a pessoa a parar; (iv) oferecer assistência (terapia, farmacoterapia, recursos de autoeducação, grupos de apoio); e (v) organizar o acompanhamento para avaliar o progresso.
  • Considerar a farmacoterapia para dependência de nicotina: A bupropiona e a terapia de reposição de nicotina são os dois tratamentos aprovados mais eficazes. O indicador mais confiável de dependência de nicotina é o tempo até o primeiro cigarro após acordar pela manhã (menor que 30 minutos).
  • Apresentação dos produtos: Os produtos de reposição de nicotina vêm em preparações de ação lenta (ou seja, adesivos de nicotina) ou média/rápida (ou seja, goma de nicotina). A maioria das pessoas que necessita de reposição precisa de uma combinação destas preparações, usando a de ação lenta para lidar com a dependência e a de ação rápida para lidar com os gatilhos.
  • Eficácia dos adesivos: Os adesivos de nicotina são mais eficazes se iniciados 2 semanas antes do dia estipulado para parar e não causam efeitos adversos adicionais.
  • Segurança da nicotina: A nicotina não causa câncer e a terapia de reposição é sempre mais segura do que fumar. Precisamos aconselhar os pacientes a não subdosar os produtos de terapia de reposição ou interromper o uso muito cedo, pois isso pode levar à recaída.
  • Aconselhamento comportamental: Envolve uma avaliação dos gatilhos para fumar, das barreiras para parar e de outras mudanças relacionadas ao estilo de vida, como exercícios e uso de álcool. A farmacoterapia é mais eficaz quando combinada com o apoio terapêutico.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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