ARTIGOS

O que é a simplificação para terapia dupla?

Por Dr. Richard Portier

em 06 de março de 2026.

Hoje, a maioria das pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) no Brasil utilizam uma terapia tripla, composta por três antirretrovirais. O tratamento inicial é composto por 1 comprimido de lamivudina 300 mg/tenofovir desoproxila 300 mg (ambos da classe dos inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeo, coformulados, ou seja, juntos no mesmo comprimido) e 1 comprimido de dolutegravir 50 mg (da classe dos inibidores da integrase). Ou seja, são 2 comprimidos ao dia.

Porém, algumas PVHA usam esquemas terapêuticos diferentes. Pessoas que desenvolvem efeitos colaterais com o dolutegravir podem utilizar 1 comprimido de lamivudina 300 mg/tenofovir desoproxila 300 mg, 1 comprimido de darunavir 800 mg e 1 comprimido de ritonavir (ambos da classe dos inibidores da protease). Pessoas que apresentam falha terapêutica podem utilizar uma terapia quádrupla, composta por quatro antirretrovirais, como, por exemplo, 1 comprimido de lamivudina 300 mg/tenofovir desoproxila 300 mg, 1 comprimido de dolutegravir 50 mg, 1 comprimido de darunavir 800 mg e 1 comprimido de ritonavir.

Simplificar o tratamento significa diminuir a quantidade de antirretrovirais em um esquema terapêutico, por exemplo, passar de uma terapia tripla para uma terapia dupla, ou de uma terapia quádrupla para uma terapia tripla. Essa conduta apresenta vantagens relacionadas à facilidade posológica, redução da toxicidade e interações medicamentosas.

PVHA que mantêm a carga viral indetectável, que possuem comorbidades ou que podem evoluir com alteração da função renal e osteopenia/osteoporose, além daquelas que apresentam intolerância ou efeito adverso relacionado a outros antirretrovirais, podem se beneficiar da terapia dupla.

As terapias duplas preferenciais são:

  • 1ª opção: 2 comprimidos de lamivudina 150 mg + 1 comprimido de dolutegravir 50 mg ou lamivudina/dolutegravir (300 mg/50 mg) coformulado, chamado Dovato®.
  • 2ª opção: 2 comprimidos de lamivudina 150 mg + 1 comprimido de darunavir 800 mg + 1 comprimido de ritonavir 100 mg.
  • 3ª opção: 1 comprimido de dolutegravir 50 mg + 1 comprimido de darunavir 800 mg + 1 comprimido de ritonavir 100 mg.

Para prescrição da terapia dupla, as seguintes condições devem estar necessariamente presentes:

  • Ausência de qualquer falha virológica prévia.
  • Adesão regular à terapia antirretroviral.
  • Carga viral indetectável nos últimos 12 meses, sendo a última carga viral realizada há pelo menos seis meses.
  • Exclusão de coinfecção com hepatite B ou tuberculose.
  • Idade igual ou superior a 18 anos.
  • Não estar gestante.
  • Taxa de filtração glomerular estimada que não implique em redução de dose da lamivudina (taxa de filtração glomerular estimada acima de 30 mL/min).
  • Esquemas com dolutegravir: não estar em uso de medicamentos que requeiram a dose dobrada de dolutegravir ou que reduzam o nível sérico do medicamento.

A seguir veremos os principais estudos que demonstram a eficácia e a segurança da terapia dupla em PVHA.

Estudo TANGO

O estudo “Efficacy and Safety of Switching to Dolutegravir/ Lamivudine Fixed-Dose 2-Drug Regimen vs Continuing a Tenofovir Alafenamide–Based 3- or 4-Drug Regimen for Maintenance of Virologic Suppression in Adults Living With Human Immunodeficiency Virus Type 1: Phase 3, Randomized, Noninferiority TANGO Study” foi publicado na Clinical Infectious Diseases em novembro de 2020.

O TANGO é um estudo de fase 3, aberto, randomizado e de não inferioridade, em andamento, que avalia a eficácia e a segurança da mudança do tratamento para a terapia dupla com lamivudina (3TC) com dolutegravir (DTG) versus permanecer com uma terapia tripla ou quádrupla baseada em tenofovir alafenamida (TAF) em adultos com carga viral indetectável vivendo com HIV-1.

Participaram do estudo adultos vivendo com HIV-1 com carga viral indetectável (RNA do HIV-1 abaixo de 50 cópias/mL) por mais de 6 meses, em uso de um esquema terapêutico com três ou quatro antirretrovirais, sendo necessariamente um deles o TAF. Foram incluídos pacientes em uso de TAF/entricitabina mais um inibidor de protease (IP), inibidor da integrase (INI) ou inibidor de transcriptase reversa não-análogo de nucleosídeo (ITRNN). O principal critério de exclusão foi o histórico de qualquer mutação de resistência aos inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) ou aos INI.

Entre 18 de janeiro de 2018 e 18 de maio de 2018, 919 PVHA foram avaliadas quanto à elegibilidade, sendo que 743 entraram no estudo. Eles foram randomizados: 371 mudaram para a terapia dupla com DTG/3TC, enquanto 372 permaneceram com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo baseado em TAF. O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral detectável, considerado maior ou igual a 50 cópias/mL na semana 48.

Após 48 semanas de estudo, a proporção de participantes com carga viral acima de 50 cópias/mL recebendo DTG/3TC foi de 0,3% (1/369) versus 0,5% (2/372) com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo baseado em TAF, atendendo aos critérios de não inferioridade.

Os autores concluíram que a  mudança do tratamento para DTG/3TC não foi inferior para a manutenção da carga viral indetectável em comparação com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo baseado em TAF, após 48 semanas. Também não foi apresentada resistência viral com o DTG/3TC. Assim, simplificar o tratamento é uma estratégia eficaz para as PVHA com carga viral indetectável.

Estudo SALSA

O estudo “Efficacy and Safety of Switching to the 2-Drug Regimen Dolutegravir/Lamivudine Versus Continuing a 3- or 4-Drug Regimen for Maintaining Virologic Suppression in Adults With Human Immunodeficiency Virus 1: Week 48 Results From the Phase 3, Noninferiority SALSA Randomized Trial” foi publicado na Clinical Infectious Diseases em fevereiro de 2023.

O SALSA é um estudo de fase 3, randomizado, aberto e de não inferioridade que avaliou a eficácia e a segurança da mudança do tratamento para a terapia dupla com lamivudina (3TC) com dolutegravir (DTG) versus permanecer com uma terapia tripla ou quádrupla em adultos com carga viral indetectável vivendo com HIV-1.

Os participantes foram selecionados em 119 centros de investigação em 17 países: Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, México, Rússia, África do Sul, Espanha, Suécia, Taiwan, Reino Unido e Estados Unidos. Foram incluídos adultos com carga viral indetectável (considerado menor que 50 cópias/mL) por 6 meses. Os esquemas terapêuticos aceitáveis antes da triagem incluíam dois inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) mais um inibidor de integrase (INI) ou um inibidor de transcriptase reversa não-análogo de nucleosídeo (ITRNN) ou um inibidor de protease (IP). O principal critério de exclusão foi qualquer evidência de mutações de resistência associadas aos ITRN ou ao DTG.

Entre 11 de novembro de 2019 e abril de 2021, 593 participantes foram triados, sendo 493 inscritos. Eles foram randomizados: 246 mudaram para DTG/3TC, enquanto 247 permaneceram com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo. O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral detectável, considerado maior ou igual a 50 cópias/mL na semana 48.

Na semana 48, 1 (0,4%) participante no grupo DTG/3TC e 3 (1,2%) no grupo com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo tinham carga viral acima de 50 cópias/mL, atendendo aos critérios de não inferioridade.

Os autores concluíram que a mudança do tratamento para DTG/3TC não foi inferior para a manutenção da carga viral indetectável em comparação com o esquema terapêutico triplo ou quádruplo, após 48 semanas. Também não foi apresentada resistência viral com o DTG/3TC. Assim como o estudo TANGO, simplificar o tratamento é uma boa estratégia para pessoas com carga viral indetectável.

Estudo DOLAM

O estudo “Efficacy and safety of switching to dolutegravir plus lamivudine versus continuing triple antiretroviral therapy in virologically suppressed adults with HIV at 48 weeks (DOLAM): a randomised non-inferiority trial” foi publicado na The Lancet HIV em agosto de 2021.

O estudo DOLAM é um ensaio clínico de não inferioridade, paralelo, randomizado, controlado, aberto, de fase 4, que avaliou a eficácia e a segurança da mudança do tratamento para a terapia dupla com lamivudina (3TC) com dolutegravir (DTG) versus permanecer com uma terapia tripla em adultos com carga viral indetectável vivendo com HIV-1.

Os participantes foram selecionados de seis grandes clínicas para o tratamento do HIV na Catalunha, Espanha. Eles foram submetidos à randomização gerada por computador, estratificada pela classe do terceiro antirretroviral, e foram designados (1:1) para simplificar o tratamento para DTG/3TC ou manter a terapia tripla por 48 semanas. O principal critério de exclusão foi qualquer evidência de mutações de resistência associadas aos antirretrovirais.

Entre 7 de julho de 2015 e 31 de outubro de 2018, 265 participantes foram inscritos. Eles foram randomizados: 131 mudaram para DTG/3TC, enquanto 134 permaneceram com o esquema terapêutico triplo. Nove (7%) participantes no grupo da terapia dupla e dez (7%) no grupo de terapia tripla foram excluídos antes das 48 semanas, principalmente devido à descontinuação do tratamento ou falha virológica. O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral detectável, considerado maior ou igual a 50 cópias/mL na semana 48.

Na semana 48, 3 (3%) participantes no grupo DTG/3TC e 2 (2%) no grupo com o esquema terapêutico triplo tinham carga viral acima de 50 cópias/mL, atendendo aos critérios de não inferioridade.

Os autores concluíram que a mudança do tratamento para DTG/3TC não foi inferior para a manutenção da carga viral indetectável em comparação com o esquema terapêutico triplo, após 48 semanas. Assim como os estudos TANGO e SALSA, simplificar o tratamento é uma boa estratégia para pessoas com carga viral indetectável.

Estudo LAMIDOL

O estudo “Dolutegravir and lamivudine maintenance therapy in HIV-1 virologically suppressed patients: results of the ANRS 167 trial (LAMIDOL)” foi publicado no Journal of Antimicrobial Chemotherapy em março de 2019.

O LAMIDOL foi um ensaio clínico aberto, de braço único e multicêntrico, que avaliou a eficácia e a segurança da mudança do tratamento para a terapia dupla com lamivudina (3TC) com dolutegravir (DTG) em pessoas vivendo com HIV-1 em uso de terapia tripla e com carga viral indetectável.

Os principais critérios para inclusão no estudo foram: carga viral indetectável (considerado abaixo de 50 cópias/mL) por mais de 2 anos, nadir de CD4 acima de 200 células/mm³ e genotipagem pré-tratamento sem resistência aos antirretrovirais de todas as classes.

Da semana 0 à semana 48, os participantes simplificaram seu tratamento para DTG/3TC. A falha do tratamento foi definida como carga viral acima de 50 cópias/mL em duas amostras consecutivas. O estudo foi desenhado para mostrar que a estratégia teve uma eficácia maior que 80%, assumindo uma taxa de sucesso de 90% com um erro tipo I de 5% e um poder de 90%.

No total, 104 participantes foram incluídos. A taxa de PVHA com carga viral indetectável foi de 97%, atendendo à expectativa/suposição do estudo. Ocorreram três falhas terapêuticas: uma falha virológica na semana 4, uma perda no acompanhamento na semana 32 e uma interrupção da estratégia terapêutica na semana 40 após um blip (carga viral de 59 cópias/mL, sucedido de carga viral abaixo de 50 cópias/mL). Três blips virais ocorreram em dois pacientes adicionais. Não ocorreram mutações de resistência à lamivudina (mutação M184V) nem ao dolutegravir após a falha ou blips.

Os autores concluíram que a mudança do tratamento para DTG/3TC é uma boa e promissora opção de tratamento para pacientes com carga viral indetectável.

Estudo RUMBA

O estudo “In-depth Analysis of the HIV Reservoir Confirms Effectiveness and Safety of Dolutegravir/Lamivudine in a Phase 4 Randomized Controlled Switch Trial (RUMBA)” foi publicado no The Journal of Infectious Diseases em fevereiro de 2025.

O RUMBA foi o primeiro ensaio clínico randomizado prospectivo a avaliar o impacto da troca da terapia tripla para a terapia dupla com lamivudina (3TC)/dolutegravir (DTG) nas células reservatório (o local onde o vírus HIV permanece em estado “dormente”, inativado, sem causar doença).

Os participantes foram recrutados no Hospital Universitário de Ghent. Os principais critérios de inclusão foram: estar em terapia antirretroviral tripla, com um inibidor da integrase de segunda geração (classe de antirretroviral da qual o dolutegravir faz parte); estar com carga viral para o HIV indetectável (considerado menor que 50 cópias/mL) por pelo menos 3 meses. Eles foram randomizados para trocar para a terapia dupla com 3TC/DTG (n = 89) ou trocar ou permanecer com a terapia tripla com bictegravir/emtricitabina/tenofovir alafenamida (B/F/TAF, n = 45). O objetivo principal foi comparar os grupos na semana 48 após a troca, medindo cópias intactas de DNA do HIV-1 em células linfócitos CD4.

O estudo foi realizado entre junho de 2020 e agosto de 2021. Entre o início e a semana 48, 4 participantes descontinuaram devido a eventos adversos (B/F/TAF = 1, DTG/3TC = 3). O sucesso virológico foi alto em ambos os grupos, resultando em 92,5% (B/F/TAF) e 98,8% (DTG/3TC) dos participantes com carga viral indetectável na semana 24 e 98% dos participantes com carga viral indetectável em ambos os grupos na semana 48.

Os pesquisadores não observaram, ao comparar ambos os grupos, uma diferença significativa na mudança no número médio de cópias intactas de DNA do HIV nas células linfócitos CD4. Não houve evidência neste estudo de que a mudança para 3TC/DTG aumentou o reservatório ativo do HIV-1. Não foram observadas mudanças significativas em citocinas pró-inflamatórias ou principais subconjuntos de células imunes.

Os autores concluíram que este estudo confirma a segurança da terapia dupla com 3TC/DTG em comparação ao B/F/TAF por meio do controle viral após investigações aprofundadas do reservatório inativado do HIV, da replicação do vírus e dos marcadores inflamatórios.

Estudo SOLAR-3D

O estudo “Prior M184V/I and multiple prior virological failures have no impact on the efficacy of switching HIV-positive adults to DTG/3TC through 96 wks in SOLAR-3D” foi apresentado em julho de 2023 na 12ª Conferência da Sociedade Internacional de AIDS sobre Ciência do HIV (IAS 2023) em Brisbane, Austrália.

O estudo SOLAR-3D teve como objetivo testar a eficácia de um esquema terapêutico com os dois antirretrovirais em pessoas com histórico de recuperação virológica. Foi um estudo aberto de 96 semanas em pessoas que tinham feito, pelo menos, dois esquemas terapêuticos diferentes. Foi realizado na Health Care Advocates International em Stratford, Connecticut.

Foram elegíveis para participar do estudo PVHA que tivessem histórico de falha terapêutica acima de 200 cópias/mL ou que nunca tivessem atingido uma carga viral inferior a 50 cópias/mL ou que apresentavam resistência à lamivudina. O estudo recrutou 50 pessoas com histórico de mutação de resistência M184V, que é a mutação que causa resistência à lamivudina, e 50 sem histórico de resistência. Os participantes foram acompanhados por 96 semanas, e o objetivo primário do estudo foi a porcentagem de pessoas com a carga viral acima de 50 cópias/mL nas semanas 48 e 96.

A população do estudo tinha uma idade média de 58 anos e 85% eram homens. Eles utilizaram uma mediana de sete esquemas terapêuticos diferentes durante uma mediana de 22 anos de tratamento. Também mantiveram a carga viral indetectável por uma média de 11 anos. Os participantes com a mutação M184V eram significativamente mais velhos, viviam há mais tempo com o HIV, tinham usado mais esquemas terapêuticos e tinham vários anos de supressão viral.

Aproximadamente três quartos (73%) dos participantes estavam usando lamivudina ou emtricitabina no momento da mudança. Na maioria das vezes, os participantes trocaram de dolutegravir/abacavir/lamivudina (51%) ou dolutegravir/rilpivirina (21%) para lamivudina/dolutegravir.

O sequenciamento do DNA proviral foi realizado para realizar testes de resistência genotípica. Ele foi bem-sucedido em 70 participantes e mostrou que a mutação M184V era detectável em 15 dos 50 participantes com histórico de resistência ao M184V.

Na semana 96, 4% dos que tinham a mutação M184V prévia e 2% dos que não tinham estavam com a carga viral acima de 50 cópias/mL. Uma análise por protocolo não mostrou diferença estatística na supressão viral abaixo de 50 cópias/mL.

Não houve interrupções devido a falha virológica confirmada (carga viral acima de 50 cópias/mL seguida de carga viral acima de 200 cópias/mL) na semana 96. A incidência de picos de carga viral acima de 50 cópias/mL, mas abaixo de 200 cópias/mL, com subsequente ressupressão abaixo de 50 cópias/mL, não diferiu entre os grupos do estudo.

Podemos concluir que, provavelmente, um histórico de falha virológica no tratamento antirretroviral com lamivudina não afeta a simplificação, quando a PVHA está em supressão viral, mesmo que apresente resistência M184V. Com esse estudo podemos ter cada vez mais segurança na simplificação do tratamento.

Estudo GEMINI

O estudo “Dolutegravir plus lamivudine versus dolutegravir plus tenofovir disoproxil fumarate and emtricitabine in antiretroviral-naive adults with HIV-1 infection (GEMINI-1 and GEMINI-2): week 48 results from two multicentre, double-blind, randomised, non-inferiority, phase 3 trials” foi publicado no The Lancet em janeiro de 2019.

O GEMINI-1 e o GEMINI-2 foram dois ensaios clínicos de fase 3, multicêntricos, duplo-cegos, randomizados, de não inferioridade, de design idêntico. Ambos os estudos foram realizados em 192 centros em 21 países.

Foram incluídos participantes com mais de 18 anos, vivendo com HIV-1, virgens de tratamento e com carga viral abaixo de 500.000 cópias. Eles foram randomizados em dois grupos e iniciaram o tratamento para o HIV com dois esquemas terapêuticos diferentes: o primeiro, com a terapia dupla com 3TC/DTG; e o segundo, com a terapia tripla com DTG/tenofovir desoproxila (TDF)/emtricitabina (FTC). O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral indetectável (considerada abaixo de 50 cópias por mL) na semana 48. A margem de não inferioridade foi considerada -10%.

Entre 18 de julho de 2016 e 31 de março de 2017, 1441 participantes, em ambos os estudos, foram randomizados para receber a terapia dupla com 3TC/DTG (n = 719) ou a terapia tripla com DTG/TDF/FTC (n = 722). No GEMINI-1, após 48 semanas, 320/356 (90%) dos participantes que receberam a terapia dupla e 332/358 (93%) dos que receberam a terapia tripla atingiram a carga viral indetectável. No GEMINI-2, 335/360 (93%) na terapia dupla e 337/359 (94%) na terapia tripla atingiram a carga viral indetectável, demonstrando não inferioridade com uma margem de -10% em ambos os estudos. Na análise combinada, 655/716 (91%) na terapia dupla versus 669/717 (93%) na terapia tripla alcançaram a carga viral indetectável. Numericamente, mais eventos adversos relacionados aos antirretrovirais ocorreram com a terapia tripla. Poucos participantes descontinuaram devido a eventos adversos.

Os autores concluíram que iniciar o tratamento em PVHA virgens de tratamento com a terapia dupla tem eficácia não inferior e perfil de tolerabilidade semelhante à terapia tripla, sendo assim, uma boa opção terapêutica.

Estudo D2ARLING

O estudo “Efficacy of dolutegravir plus lamivudine in treatment-naive people living with HIV without baseline drug-resistance testing available (D2ARLING): 48-week results of a phase 4, randomised, open-label, non-inferiority trial” foi publicado no The Lancet HIV em fevereiro de 2025.

O D2ARLING foi um estudo aberto, de não inferioridade, unicêntrico, de fase 4, randomizado e controlado, projetado para avaliar a eficácia e a segurança da terapia dupla DTG/3TC em PVHA virgens de tratamento e sem teste de genotipagem basal disponível.

Foram incluídos participantes com 18 anos ou mais, com diagnóstico de HIV-1, virgens de terapia antirretroviral e sem resultado de teste de genotipagem basal disponível. Eles foram randomizados para receber a terapia dupla DTG/3TC ou a terapia tripla DTG 50 mg mais tenofovir disoproxil fumarato 300 mg (TDF) mais emtricitabina 200 mg (FTC) ou 3TC 300 mg.

Conforme o protocolo, foram realizados testes de genotipagem para avaliar resistência aos antirretrovirais no primeiro dia, que permaneceram “escondidos” durante todo o estudo, simulando um cenário de inacessibilidade ao teste de genotipagem basal. O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral indetectável (considerada abaixo de 50 cópias por mL) na semana 48, com margem de não inferioridade pré-especificada de 10%.

Entre 17 de novembro de 2020 e 31 de agosto de 2022, 214 participantes foram randomizados e tratados com a terapia dupla DTG/3TC (n = 106) ou a terapia tripla DTG/TDF/FTC ou 3TC (n = 108). No início do estudo, 66 (31%) dos participantes apresentavam carga viral do HIV-1 superior a 100.000 cópias por mL, e 44 (21%) apresentavam contagem de células CD4 inferior a 200 células por μL.

Na semana 48, 97/106 (92%) dos participantes no grupo DTG/3TC e 96/108 (89%) dos participantes no grupo DTG/TDF/FTC ou 3TC apresentaram carga viral indetectável, demonstrando a não inferioridade da terapia dupla em relação à terapia tripla. Nenhum dos participantes no grupo DTG/3TC e dois no grupo controle apresentaram falha virológica definida pelo protocolo, e nenhum desenvolveu mutações de resistência emergentes do tratamento a qualquer um dos medicamentos do estudo. As taxas gerais de eventos adversos foram semelhantes entre os grupos. Menos de 1% dos participantes em ambos os grupos interromperam o tratamento devido a eventos adversos.

Os autores concluíram que este estudo fornece evidências que sustentam a não inferioridade da terapia dupla em comparação com a terapia tripla em PVHA virgens de tratamento sem teste de genotipagem basal. Esses resultados sugerem que o teste de genotipagem basal pode não ser um requisito para iniciar o tratamento com DTG/3TC em contextos com baixa frequência ou suspeita de resistência transmitida a esses antirretrovirais.

Estudo DUALIS

O estudo “Efficacy and Safety of Switching to Dolutegravir With Boosted Darunavir in Virologically Suppressed Adults With HIV-1: A Randomized, Open-Label, Multicenter, Phase 3, Noninferiority Trial: The DUALIS Study” foi publicado na Open Forum Infectious Diseases em agosto de 2020.

O DUALIS foi um ensaio clínico randomizado, aberto, de fase 3b, de não inferioridade, que comparou a troca para a terapia dupla DTG + DRV/r versus a continuação da terapia tripla com dois inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN) com DRV/r.

PVHA com carga viral indetectável (considerada abaixo de 50 cópias/mL) em uso da terapia tripla por mais de 24 semanas foram randomizados para trocar para a terapia dupla DTG + DRV/r ou continuar com a terapia tripla. O desfecho primário foi a proporção de carga viral indetectável na semana 48. A margem de não inferioridade foi maior ou igual a –10,0%.

No total, 263 PVHA foram randomizados entre o grupo da terapia dupla (n = 131) ou da terapia tripla (n = 132). Na semana 48, 86,3% (n = 113/131) no grupo da terapia dupla e 87,9% (n = 116/132) no grupo da terapia tripla estavam com a carga viral indetectável. Não foi observado desenvolvimento de resistência viral aos antirretrovirais.

Os autores concluíram que a mudança para DTG + DRV/r não foi inferior ao tratamento triplo em PVHA já tratados com DRV/r.

Estudo D2EFT​

O estudo “Dolutegravir plus boosted darunavir versus recommended standard-of-care antiretroviral regimens in people with HIV-1 for whom recommended first-line non-nucleoside reverse transcriptase inhibitor therapy has failed (D2EFT): an open-label, randomised, phase 3b/4 trial” foi publicado na The Lancet HIV em julho de 2024.

O D2EFT foi um ensaio clínico internacional, randomizado, aberto, de fase 3b/4, que avaliou três estratégias de terapia antirretroviral de segunda linha em PVHA, nos quais a terapia de primeira linha com inibidor da transcriptase reversa não-análogo de nucleosídeos (ITRNN) falhou.

O estudo foi realizado em 28 locais em 14 países da Ásia, África e América Latina. Foi originalmente concebido para comparar dois grupos: o primeiro, com a terapia tripla com darunavir (DRV/r) mais dois inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN); o segundo, com dolutegravir (DTG) mais DRV/r. O estudo foi adaptado durante o primeiro ano para adicionar um terceiro grupo: DTG mais dois ITRN. O desfecho primário foi avaliar a não inferioridade de qualquer grupo, determinada pela carga viral indetectável (considerada menor que 50 cópias por mL) na semana 48. A margem de não inferioridade pré-especificada foi de -12%.

Entre 1º de novembro de 2017 e 31 de dezembro de 2021, 828 participantes foram inscritos no estudo. Dois participantes não puderam receber a terapia designada por motivos administrativos; e 826 participantes foram incluídos nas análises. A mediana da contagem de linfócitos CD4 foi de 206 células por μL e a mediana da carga viral foi de 15.400 cópias por mL. A proporção de participantes com carga viral indetectável em 48 semanas foi: 194/257 (75%) no grupo DRV/r mais 2 ITRN; 222/264 (84%) no grupo DTG mais DRV/r; e 227/291 (78%) no grupo DTG mais 2 ITRN.

Os autores concluíram que, em PVHA com falha ao tratamento baseado em ITRNN, sem acesso universal à genotipagem, a troca para DTG mais DRV/r ou DTG mais 2 ITRN não foi inferior à troca para DRV/r com 2 ITRN. Esses dados globais corroboram as diretrizes de tratamento mais recentes da OMS.

Estudo ANDES

O estudo “Dual therapy based on co-formulated darunavir/ritonavir plus lamivudine for initial therapy of HIV infection: The ANDES randomized controlled trial” foi publicado no International Journal of Antimicrobial Agents em outubro de 2024.

O ANDES foi um ensaio clínico randomizado, aberto, de fase 4, de 48 semanas, de não inferioridade, em PVHA virgens de tratamento. Os participantes foram randomizados em dois grupos: o primeiro recebeu a terapia dupla 3TC/DRV/r; o segundo, a terapia tripla com DRV/r mais tenofovir 300 mg/emtricitabina 200 mg ou tenofovir 300 mg/lamivudina 300 mg. O desfecho primário foi a proporção de pacientes com carga viral indetectável (considerada abaixo de 50 cópias/mL) na semana 48. A margem de não inferioridade foi de -12%.

Entre novembro de 2015 e 31 de outubro de 2020, 336 participantes foram randomizados para o grupo da terapia tripla (n = 165) ou para o grupo da terapia dupla (n = 171). Após 48 semanas, 153/165 PVHA no grupo da terapia tripla (93%) e 155/171 no grupo da terapia dupla (91%) alcançaram a carga viral indetectável. Eventos adversos relacionados ao medicamento foram mais comuns no grupo de terapia tripla. Dois eventos relacionados à toxicidade levaram à descontinuação em cada grupo.

Os autores concluíram que a terapia dupla 3TC/DRV/r demonstrou ser não inferior, com um perfil de toxicidade mais seguro em comparação à terapia tripla com tenofovir, em PVHA sem tratamento prévio.

Estudo DUAL-GESIDA

O estudo “Dual Therapy With Darunavir and Ritonavir Plus Lamivudine vs Triple Therapy With Darunavir and Ritonavir Plus Tenofovir Disoproxil Fumarate and Emtricitabine or Abacavir and Lamivudine for Maintenance of Human Immunodeficiency Virus Type 1 Viral Suppression: Randomized, Open-Label, Noninferiority DUAL-GESIDA 8014-RIS-EST45 Trial” foi publicado na Clinical Infectious Diseases em novembro de 2017.

O DUAL-GESIDA foi um ensaio clínico multicêntrico, aberto e de não inferioridade (margem de 12%). PVHA com carga viral indetectável (considerada abaixo de 50 cópias/mL) por mais de 6 meses, em terapia tripla com DRV/r mais 2 inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRN), sem resistências, foram randomizados para continuar a terapia tripla (n = 128) ou mudar para a terapia dupla 3TC/DRV/r (n = 129). O desfecho primário foi a proporção de participantes com carga viral indetectável após 48 semanas de acompanhamento.

Foram analisados os dados de 249 participantes. A proporção de PVHA com carga viral indetectável no grupo da terapia dupla e da terapia tripla foi de 88,9% (112/126) e 92,7%, respectivamente. Quatro participantes no grupo da terapia dupla e dois no grupo da terapia tripla desenvolveram falha virológica definida pelo protocolo.

Os autores concluíram que a terapia dupla 3TC/DRV/r demonstrou eficácia terapêutica não inferior e tolerabilidade semelhante à terapia tripla.

Conclusão

Vários estudos demonstram a eficácia e segurança das três opções da terapia dupla, principalmente em PVHA que sempre foram aderentes e mantiveram suas cargas virais indetectáveis ao longo do tratamento. Cabe ao médico uma criteriosa avaliação, pois simplificar pode significar menos efeitos colaterais e melhor comodidade posológica.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

Redes sociais

Nenhuma informação desta página substitui a consulta médica. Nunca altere seu tratamento sem antes consultar um médico ou profissional de saúde. Apenas esse profissional poderá avaliar detalhadamente sua situação clínica e decidir se você está apto a essas mudanças. Portanto, para a sua segurança, o acompanhamento médico é imprescindível.

© 2026 Richard Portier. CNPJ 31.671.711/0001-11. Todos os direitos reservados. Termos de uso.