ARTIGO

Você mudaria o seu tratamento para duas injeções ao mês?

Por Dr. Richard Portier

em 02 de maio de 2020.

Sem dúvidas, o tratamento para o HIV, chamado de terapia antirretroviral altamente eficaz (TARV), foi um dos avanços mais importantes na história da medicina nos últimos 25 anos. Não só aumentou drasticamente o prognóstico das pessoas vivendo com HIV, como também evoluiu muito em relação a quantidade de comprimidos e efeitos colaterais.

Na semana passada, foram publicados dois artigos no maior jornal de medicina do mundo, o The New England Journal of Medicina. Estes dois ensaios clínicos internacionais, de fase 3 – Long-Acting Cabotegravir and Rilpivirine for Maintenance of HIV-1 Suppression (ATLAS) e Long-Acting Cabotegravir and Rilpivirine after Oral Induction for HIV-1 Infection (FLAIR) 1 – mostram resultados de 48 semanas de tratamento de pessoas vivendo com HIV que receberam duas injeções mensais de ação prolongada de duas classes medicamentosas diferentes: o cabotegravir, um inibidor da integrase, e a rilpivirina, um inibidor da transcriptase reversa não nucleosídeo.

Em ambos os ensaios, os participantes tinham carga viral indetectável e receberam duas injeções intramusculares de cada medicamentos a cada 4 semanas. Os principais resultados foram: o tratamento injetável mensal não foi inferior ao tratamento oral diário contínuo, ou seja, ambos possuem resultados iguais (manter a carga viral indetectável); os participantes preferiam as injeções mensais à terapia oral diária.

Mas o que podemos concluir com ambos estudos? Primeiro, quando aprovado pelos órgãos reguladores, será o primeiro passo para tornar realidade a dosagem menos frequente de TARV. Para muitos, não tomar comprimidos todos os dias será um grande avanço, mesmo ao custo de receber duas injeções intramusculares mensalmente.

Dito isto, teremos grandes desafios. Atualmente, a maioria das pessoas vivendo com HIV são atendidas no SUS a cada 6 meses. Apesar de buscarem mensalmente as medicações nas farmácias municipais, precisaríamos de uma nova logística para aplicação das injeções. Também precisaríamos de protocolos para fornecer a terapia oral para pessoas que atrasarem as injeções, como foi fornecido em ambos os estudos. Gestões como falha virológica e resistência terão que ser avaliadas, além dos custos com todas essas operações.

Outro ponto fundamental foi a incidência alta de reações no local da injeção – 81% no ATLAS e 86% no FLAIR. Porém, poucos participantes desistiram de receber as injeções por esse motivo durante as primeiras 48 semanas. Claramente, os benefícios de não tomar os comprimidos diariamente superaram esse inconveniente durante o primeiro ano de tratamento. Mas será que as injeções se tornarão menos aceitável ao longo do tempo? Precisamos estar preparados para que as pessoas possam alternar entre o tratamento oral e o injetável, caso desejem.

Embora tenha sido excelente ver uma baixa incidência de falha virológica em cada estudo, a alta incidência de resistência entre aqueles que tiveram falha no tratamento, em particular no estudo FLAIR, merece uma investigação mais aprofundada, como observado pelos autores. Serão necessários protocolos para monitorar cuidadosamente a resistência à medida que esse tratamento for implementado, especialmente nos casos de falha virológica como resultado de atrasos no recebimento de injeções mensais.

Por fim, ambos os estudos foram realizados em adultos, não grávidas, nos quais a carga viral indetectável foi alcançada pela primeira vez enquanto eles faziam o tratamento oral. Até o momento, não há estudos em gestantes e crianças.

Os estudos ATLAS e FLAIR são novos marcos importantes no avanço no tratamento do HIV. Porém há grandes desafios. Você trocaria o seu tratamento oral diário por 2 injeções intramusculares mensais? Deixe sua resposta abaixo e mande suas perguntas.

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Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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