ARTIGO

Estamos próximos da cura?

Por Dr. Richard Portier

em 02 de maio de 2020.

Na semana passada, o “Paciente de Londres”, a segunda pessoa curada do HIV, decidiu tornar público a sua identidade – clique aqui  para ler a matéria completa no The New York Times.

E junto com a sua revelação, várias pessoas me mandaram perguntas sobre a cura e como isso foi possível.

Contarei o caso desde o início. Em 2011, o Paciente de Londres foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin. Após cinco anos de tratamento exaustivo, porém fútil, ele foi submetido a um transplante de medula óssea em maio de 2016, utilizando células-tronco de um doador com resistência natural ao HIV. Felizmente, o transplante levou à remissão completa de seu linfoma, e desde que interrompeu o tratamento para o vírus, os pesquisadores não conseguiram encontrar o HIV em seu sangue, sêmen, linfonodos, tecido intestinal e líquido cefalorraquidiano (liquor). Você pode ler o artigo original clicando aqui.

“Mas Doc, como isso aconteceu?” Para conseguir te explicar, primeiro preciso mostrar como o HIV entra na célula CD4.

Para entrar no CD4, a maioria dos tipos de HIV precisam se ligar ao receptor do CD4 (roxo) e ao co-receptor CCR5 (verde). Após essa ligação, o HIV se funde com a membrana do CD4, dando continuidade ao seu ciclo de multiplicação.

O que é a resistência natural ao HIV? Algumas pessoas possuem uma mutação genética incomum conhecida como CCR5-delta-32, que resulta na falta do co-receptores CCR5. Como a pessoa não tem o co-receptor, o HIV não consegue entrar no CD4. Consequentemente, não consegue se multiplicar e causar a infecção.

Testes pós-transplante mostraram que a maioria de suas células CD4 transplantadas no Paciente de Londres não possuíam receptores CCR5. Ou seja, as células-tronco doadoras reconstruíram um novo sistema imunológico resistente ao HIV. Por isso, em setembro de 2017, ainda sem evidências do vírus em seu corpo, decidiu-se interromper a terapia antirretroviral.

Quando testado pela última vez em 4 de março de 2020 – 30 meses após a interrupção do tratamento – sua carga viral no sangue permaneceu indetectável. Além disso, a carga viral permaneceu indetectável em seu sêmen, seu líquido cefalorraquidiano (o líquido que fica ao redor do cérebro, chamado também de liquor) e sua medula óssea. Biópsias intestinais mostraram que o DNA do HIV não foi encontrado em amostras do reto, cólon sigmóide ou íleo (parte do intestino delgado). Assim como biópsias de linfonodos.

Os testes mostraram “um sinal positivo de nível muito baixo” para o DNA do HIV nas células CD4 periféricas, mas acredita-se que esses fragmentos de material genético sejam essencialmente “fósseis” que não podem desencadear a multiplicação do vírus.

Os níveis de anticorpos específicos para o HIV são baixos e continuam a cair, sugerindo que os fragmentos remanescentes do vírus não estão estimulando uma resposta imunológica do corpo. Porém a recuperação das células CD4 tem sido um pouco lenta, sendo a última 430 células/mm3, o que pode ser devido aos efeitos prolongados da quimioterapia ou ao diagnóstico tardio do HIV.

Com base em um modelo matemático, os pesquisadores calcularam que a probabilidade de “remissão vitalícia”, ou seja, cura, é de 99% se pelo menos 90 % das células CD4 mantiverem a mutação CCR5-delta-32 do doador. Quando testado pela última vez, a mutação foi mantida em 99% das células CD4, sugerindo que a cura é “quase certa”.

“Mas Doc, estamos perto da cura?” Com certeza este resultado nos encoraja, porém só o tempo dirá.

O transplante de medula óssea é um procedimento médico de extremo alto risco e complexo, com altas chances de complicações e morte. Por isso, só é uma opção para quem tem o câncer. Além disso, o doador precisaria ter a mutação CCR5-delta-32, que é rara. Ou seja, invíavel em larga escala. Porém há estudos para imitar o mesmo efeito, como, por exemplo, terapia genética para excluir os receptores CCR5 das células CD4.

Por enquanto, a curto e médio prazo, a nossa melhor opção é o tratamento, que já salvou milhões de vidas. Por isso, tome seus medicamentos todos os dias, no mesmo horário, conforme prescrito pelo seu médico, e vá nas consultas médicas regularmente. Existe um estudo demonstrando que a pessoas que vive com o HIV e trata corretamente tem uma expectativa de vida maior que a população geral. Mas esse assunto conversaremos em um próximo post.

ENTENDA O SEU TRATAMENTO PARA EVITAR A FALHA TERAPÊUTICA E A RESISTÊNCIA OS MEDICAMENTOS

Evite a AIDS e suas complicações.

Médico Infectologista

CRMPR 32.357

RQE 23.586

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