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Alterações hormonais e o HIV: o que você precisa saber

Por Dr. Richard Portier

em 18 de julho de 2020.

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Os nossos hormônios são como mensageiros: viajam pelo corpo para avisar as células quais tarefas devem realizar. Por isso influenciam em tudo – nosso sistema imunológico, nossa energia, nosso humor, quão bem dormimos, nosso desejo sexual, nossa fome, a força de nossos músculos, a saúde de nossos ossos e muitos outros aspectos de nossa vida.

Algumas pessoas que vivem com HIV (PVHIV) podem ter baixos níveis de alguns hormônios, sendo os principais: testosterona, hormônios da tireóide e DHEA (hormônio que leva à produção de andrógenos e estrógenos).

Isso acontece com mais frequente nas pessoas que realizaram o diagnóstico na fase AIDS, e com probabilidade menor nas diagnosticadas precocemente. 

Qualquer que seja o estágio do seu diagnóstico, é uma boa ideia testar seus níveis hormonais e, se necessário, restaurar esse equilíbrio.

Aqui vai um dica preciosa: como em muitos exames de sangue, os laboratórios definem os níveis hormonais “normais” com base nos níveis médios de um grande número de pessoas na população em geral. 

O seu “normal” pode estar dentro ou fora desse intervalo. Ou seja, os níveis hormonais “normais” para você são os que eliminam os seus sintomas e o devolvem o seu bem-estar.

Além disso, restaurar os seus hormônios para níveis ideais ajuda a prevenir problemas graves, como doenças cardíacas, osteoporose, depressão, perda de desejo sexual, cansaço e perda muscular.

Neste artigo você ira aprender como o HIV contribui para alterações hormonais, de forma direta e indireta, e quais os sinais e sintomas que você deve saber para relatar ao seu médico.

Estresse, o seu maior inimigo

Eu preciso te dizer o óbvio: o estresse interfere no seu apetite, no seu sono, no seu humor, no seu desejo sexual, na sua capacidade de ganhar massa muscular, no seu trabalho. Ou seja, em cada aspecto da sua vida. Isso acontece porque o estresse afeta seus hormônios.

Segundo a Teoria do Cérebro Trino, osso cérebro é dividido em três unidades funcionais distintas: reptiliano, sistema límbico e neocórtex.

O cérebro reptiliano, o mais primitivo de todos, é o responsável pelo nosso instinto – reage a qualquer ameaça iminente à nossa sobrevivência – e o estresse é uma dessas ameaças.

Viver em um estado constante de estresse, devido ao diagnóstico do HIV, ou uma carga de trabalho incrivelmente pesada, ou devido a rotina domiciliar, ou ou a diversos medos, é viver constantemente ameaçado.

Isso desencadeia uma reação de “luta ou fuga” constante, como se um leão estivesse prestes a te atacar a todo momento.

Vou te explicar como isso acontece bioquimicamente: primeiro, o hipotálamo, uma pequena área na base do cérebro, aciona um sistema de alarme. Isso faz as glândulas supra-renais aumentarem a produção de dois hormônios, a adrenalina e o cortisol.

A adrenalina aumenta sua frequência cardíaca e pressão arterial, aumentando o fluxo sanguíneo para os músculos e permitindo que você lute ou fuja. O cortisol, também conhecido como “hormônio do estresse”, aumenta o nível de glicose na corrente sanguínea para fornecer o combustível necessário, e manter a energia desses músculos, enquanto você luta ou foge.

O cortisol também suprime funções corporais que não são essenciais para sua resposta à ameaça – altera diversos outros hormônios, sua resposta imunológica, suprime o sistema digestivo, o sistema reprodutivo, os processos de crescimento e o humor.

É claro que se você estivesse sendo perseguido por leão, essa resposta poderia ajudar a salvar sua vida. 

Mas quando o estresse é contínuo, por um longo período de tempo, e se torna crônico, essa resposta ao estresse se torna um grave risco à sua saúde, e pode levar a problemas digestivos, doenças cardíacas, insônia, depressão, ganho de peso, problemas de pele, perda de cabelo, perda do libido, dificuldade em ganhar massa muscular, entre diversas outras consequência.

Afinal, se você está apenas tentando sobreviver, não precisa ser feliz, ficar bonito ou reproduzir. 

Por isso, para manter esses hormônios sob controle, você precisa resolver os problemas da sua vida que são as principais fontes de estresse.

Testosterona, o principal hormônio masculino

A testosterona é o principal hormônio masculino, porém as mulheres também produzem e o utilizam, embora em pouca quantidade. Tanto em homens como em mulheres, a baixa testosterona pode levar a:

  • Menor desejo sexual (libido).
  • Infertilidade.
  • Baixo ganho de massa muscular, mesmo quando a pessoa se exercita.
  • Força diminuída.
  • Comprometimento em realizar as atividades diárias.
  • Perda da apetite.
  • Cansaço crônico.
  • Diminuição da função cardíaca.
  • Perda de massa óssea.
  • Depressão e outros transtornos de humor.

HIV e a testosterona

A etiologia precisa da baixa testosterona entre os homens vivendo com HIV permanece incerta, mas provavelmente possui diversas fatores.

Os mecanismos propostos incluem desnutrição, aumento dos níveis de citocinas inflamatórias, infecções oportunistas, a própria infecção pelo HIV e medicamentos, incluindo os anti-retrovirais.

Agora, vamos discutir mais profundamente um a um. E não se assuste com os termos – caso ache muito complexo ou difícil, leia atentamente e comece a se familiarizar com os termo. Com o tempo, tudo ficará mais fácil. 

Antes da terapia anti-retroviral, as PVHIV eram mais propensas a desenvolver a AIDS e perda de peso. Ambos correlacionavam-se à baixa produção testosterona pelas células de Leydig – uma das principais célula do testículo – que afetava cerca 50 % dos homens nessa fase.

Além disso, foi demonstrado uma baixa  produção de androgênios – hormônios que estimulam a testosterona – também prejudicando sua produção.  

Infecções oportunistas também eram mais frequentes na era pré-terapia: toxoplasmose, citomegalovírus, tuberculose, criptococose e histoplasmose provocam queda na produção de testosterona. Câncer, como o Sarcoma de Kaposei e o linfoma também foram implicados.

O próprio HIV também pode interferir diretamente no funcionamento das células de Leydig; no entanto, isso é debatido com estudos recentes que sugerem que o HIV-1 pode não infectar essas células.

Por fim, uma variedade de anormalidades no tecido testicular, incluindo a hialinização dos túbulos seminíferos, parada espermatogênica e fibrose podem contribuir para baixos níveis de testosterona; a causa dessas alterações permanece incerta.

A desnutrição, bem como doenças agudas e crônicas, demonstraram reduzir os níveis de testosterona na era pré-terapia, por interferência nos funcionamento normal do eixo hipotálamo-hipófise-testicular; esse pode ser um problema cíclico, pois a próprio falta de testosterona pode levar a mais perda de peso.

Os efeitos da inflamação crônica nos testículos e no hipotálamo/hipófise são importantes. Foi demonstrado que o fator inflamatório interleucina-1 reduz a produção de esperma e contribuem para baixos níveis de testosterona.

O advento da terapia anti-retroviral resultou em uma menor prevalência de baixa testosterona provavelmente relacionada à redução de casos associados à AIDS; no entanto, permanece um problema significativo, mesmo entre pessoas nos estágios iniciais da doença pelo HIV, com taxas superiores à população geral.

Hoje, o foco nas causas potenciais para baixa testosterona mudou para os efeitos do envelhecimento, uso de medicamentos e doenças não relacionadas ao HIV.

Drogas ilícitas, como maconha e opiáceos, além de anabolizantes e álcool, inibem a função do testículo.

Os anti-retrovirais têm sido implicados, mas os dados são limitados. Por isso, mais estudos são necessários.

Por fim, obesidade, estresse e síndrome metabólica também podem influenciar.

Testosterona e o osso

Altas taxas de osteopenia e osteoporose foram relatadas em PVHIV e as taxas de prevalência variam entre 22-71% e 3-33%, respectivamente.

A perda de densidade mineral óssea pode ser aumentada pelos anti-retrovirais, deficiência de vitamina D, uso de álcool e drogas, tabagismo, baixo índice de massa corporal e a própria infecção pelo HIV.

O baixa testosterona pode ser um fator a mais para perda óssea, por isso deve ser monitorada pelo seu médico.

Terapia de reposição de testosterona

Se você sente alguns dos sintomas descritos acima, converse com o seu médico na próxima consulta. O exame de sangue é a única maneira de determinar se seu nível de testosterona está baixo.

Realizar a terapia de reposição de testosterona pode melhor seus sintomas, aumentar seu humor, energia, força e desejo sexual, além de ajudar a manter a saúde do coração e dos ossos, e reverter a resistência à insulina.

Dito isto, essa terapia não é uma bala de prata que reverterá magicamente todos os seus problemas. Pode haver riscos. Estudos demonstraram achados conflitantes relacionados ao risco de doença cardiovascular associada à terapia de reposição de testosterona.

Além disso, sua segurança em homens mais velhos e com diabetes ou obesidade não foi bem estudada. Por isso, sempre fale com seu médico para avaliar se o tratamento é ideal para você.

O excesso de testosterona pode aumentar os níveis de gordura no sangue, causar aumento da próstata, aumentar o risco de coágulos sanguíneos, aumentar a contagem de glóbulos vermelhos, causar acne, tornar a pessoa mais agressiva e contribuir para a calvície masculina. As mulheres também podem experimentar o crescimento dos pêlos do corpo masculino e mudança na voz.

Por isso, nunca utilize sem prescrição médica.

Tipos de terapia

A terapia está disponível em diferentes formas: creme para a pele, gel, adesivo, medicamento por via oral ou injetável. Você e seu médico determinarão qual forma é adequada para você com base na disponibilidade, efeitos colaterais, sua situação e outros fatores.

O uso a longo prazo por via oral pode prejudicar o fígado, e o uso a longo prazo de injeções pode interromper a produção da testosterona do próprio corpo, e causar ainda mais problemas.

As injeções também apresentam um risco muito maior de efeitos colaterais, como ansiedade, dores de cabeça, agressividade, irritabilidade, alterações de humor, insônia, retração testicular e impotência.

Testosterona para as mulheres

Para mulheres que precisam de reposição de testosterona, creme ou gel fornecem a pequena quantidade necessária para atingir os níveis ideais de testosterona.

A Vitex agnus-castus pode ser utilizada para aumentar a testosterona em mulheres; no entanto, não sabemos ao certo como essa erva funciona.

O zinco, associada a suplementação de cobre, também pode estimular o corpo a produzir mais testosterona, principalmente em pessoas com deficiências leves.

DHEA

DHEA é um hormônio produzido pelas glândulas supra-renais e, em menor grau, pelos testículos e ovários. É o precursor de outros hormônios, como a testosterona e o estrogênio, e ajuda a estimular a produção do hormônio do crescimento.

Estudos demonstraram que PVHIV geralmente apresentam baixos níveis de DHEA. Os níveis também diminuem constantemente com o envelhecimento.

Sua suplementação pode aumentar a energia, reverter problemas de memória, aumentar o apetite e melhorar o humor e a sensação geral de bem-estar.

Nas PVHIV, o DHEA pode ajudar a restaurar a função imunológica, melhorar a energia e proteger o corpo contra os efeitos negativos do estresse.

No entanto, deve ser tomada apenas com orientação médica. O DHEA é um hormônio poderoso e tomar em excesso pode elevar o estrogênio ou a testosterona a níveis anormalmente altos, por isso não utilize sem prescrição.

Hormônios da tireóide

A tireóide é uma pequena glândula em forma de borboleta que fica acima da clavícula e abaixo do pomo de Adão.

Produz os hormônios tiroxina (T4) e triiodotironina (T3), que regulam o nosso metabolismo – controlam como nosso corpo, armazenam e usam energia, e ajudam a regular nosso humor e peso.

O problema mais comum é o hipotireoidismo: a tireóide se torna pouco ativa e não produz hormônio tireoidiano suficiente.

HIV e a tireóide

A reconstituição imune é um fenômeno de resposta imunológica exagerada após o inicio do tratamento, que pode levar à precipitação de distúrbios auto-imunes como a doença de Graves em cerca de 2% das PVHIV.

Já o risco de câncer da tireóide não aumenta significativamente. Foram relatados casos raros de envolvimento da glândula tireóide por infecções oportunistas ou tumores, como o sarcoma de Kaposi.

Outras fatores de risco

Outros fatores de risco incluem:

  • Histórico familiar de doença da tireóide.
  • Mulheres são mais propensas.
  • Idade, principalmente em mulheres com mais de 60 anos.
  • Ter uma doença autoimune, como lúpus, esclerose múltipla ou artrite reumatóide.
  • Uso de medicamentos, como amiodarona, interferon e lítio.

Além desses, o suplemento nutricional ácido alfa-lipóico, um antioxidante amplamente utilizado, parece causar problemas na tireóide em algumas pessoas, quando tomado em doses mais altas. Se você está pensando em tomar o ácido alfa-lipóico, converse com seu médico antes.

Sintomas de hipotireoidismo

Os sinais e sintomas do hipotireoidismo são:

  • Cansaço, fraqueza e dor muscular.
  • Ganho de peso.
  • Colesterol alto.
  • Problemas de memória ou sensação de “ar no cérebro”.
  • Dificuldade de concentração.
  • Depressão.
  • Baixa temperatura corporal, que pode resultar em sensação de frio e pés e mãos gelados.
  • Pele seca, áspera ou escamosa.
  • Unhas quebradiças.
  • Perda de cabelo ou cabelo quebradições.
  • Constipação.

Se você está sentindo algum dos sintomas descritos, converse com o seu médico na próxima consulta. O exame de sangue é a única maneira de realizar o diagnóstico do hipotireoidismo.

Tratamento

A reposição hormonal da tireóide mais comumente prescrita é a levotiroxina. Seu médico provavelmente começará com uma dose baixa e aumentará gradualmente, até que seus níveis hormonais se normalizem e seus sintomas desapareçam.

Seja paciente, pois pode levar algumas semanas. Caso sinta palpitações, problemas de sono, ansiedade, nervosismo, sudorese ou agitação, mencione imediatamente ao seu médico, pois pode significar que sua dose está muito alta.

Perimenopausa e menopausa

Alterações hormonais fazem parte do processo natural do envelhecimento, e são muito mais perceptível nas mulheres do nos homens.

Nos homens, os níveis de testosterona atingem um pico durante a adolescência e no início da idade adulta. Depois, diminuem lentamente a partir dos 30 anos de idade.

Já nas mulheres, os estágios de transição ocorrem na puberdade. Depois, durante a perimenopausa e a menopausa.

A menopausa ocorre geralmente entre as idades de 45 e 55 anos, mas pode ocorrer mais cedo. E a perimenopausa – os anos que antecedem a menopausa – começam de um a 10 anos antes da menstruação parar completamente.

Durante a perimenopausa, seu corpo diminui gradativamente a produção de estrogênio e progesterona. Seu ciclo menstrual pode ficar mais curto -por exemplo, 24 dias em vez de 28 dias – ou ficar irregular; ou seu sangramento pode ser maior que o normal.

Algumas mulheres percebem que seu tecido vaginal diminui, a síndrome pré-menstrual (TPM) piora, o desejo sexual muda e iniciam as ondas de calor, suores noturnos, insônia e irritabilidade. Ou seja, a experiência varia drasticamente de mulher para outra.

Estudos antigos demonstraram várias diferenças entre os ciclos menstruais das mulheres vivendo com HIV e as HIV-negativas; entretanto, estudos mais recentes sugerem que o vírus tem menos impacto na menstruação do que se pensava – parece não haver diferenças significativas nas taxas de dor menstrual, sintomas na perimenopausa ou no desenvolvimento da menopausa precoce.

No entanto, alguns estudos demostraram que mulheres com baixa contagem de CD4 têm maior probabilidade de ciclo irregulares.

Como fazem parte natural do envelhecimento, você não precisa de nenhum tipo de tratamento, apenas se apresentar sintomas que estão atrapalhando sua rotina. Aqui vão algumas dicas:

Alimentos para melhorar sintomas

Aumentar os níveis de triptofano, estimulante da produção de serotonina, um neurotransmissor do cérebro, pode ajudar a aliviar os sintomas emocionais que da perimenopausa. Ou seja, alimentos que aumentem seus níveis de triptofano podem ajudar.

Coma mais alimentos ricos em triptofano ,como peixes gordos (atum e salmão), queijo maturado, ovo, amendoim, castanhas, banana e leite.

Utilize suplementos

Antes de iniciar qualquer suplementação ou fitoterapia, converse com o seu médico para evitar possível interações com os medicamentos.

Para seios doloridos ou inchados, redução das ondas de calor e suores noturnos, a suplementação de vitamina E pode ser útil.

O 5-hidroxi-triptofano (5-HTP) alivia os problemas do sono e a spirulina contém grande quantidade de triptofano.

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Médico Infectologista

CRMPR 32.357

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